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Desafios do clima e o papel do Brasil

Clodoaldo Armando Gazzetta
| Tempo de leitura: 4 min

Acontecerá no próximo mês a COP 15 – Conferência das Partes da Convenção do Clima em Copenhagen. A reunião é estratégica visto que a cada novo relatório científico sobre o aquecimento do planeta é mais preocupante que o anterior. A situação parece ser ainda mais grave, pois mesmo os piores cenários constantes no quarto relatório do IPCC (Intergovernamental Painel on Climate Change) de 2007 não previram a velocidade do degelo do Ártico, da Antártida, entre outras situações. O derretimento, bem mais rápido do que o previsto, das geleiras do Himalaia, Tibet e Andes, que contribuem para o abastecimento de água de bilhões de pessoas, é assustador! O que mais preocupa neste caso são as emissões de gás metano oriundas desses ecossistemas já atingidos pelo aumento de temperatura. O metano é um gás 21 vezes mais potente, do ponto de vista do aquecimento global, que o CO2, e os cientistas temem que a liberação de seus depósitos naturais no Ártico, nos fundos dos oceanos e em alguns outros biomas, possa ter um impacto significativo comprometendo esforços de redução de emissões já implementados.

Os impactos do aquecimento global na economia são extremamente severos, como demonstrou o Relatório Stern de 2006. Está em fase final de sistematização o denominado “Relatório Stern brasileiro”, cuja divulgação alertar para os impactos do aumento da temperatura no território brasileiro, entre as quais vale registrar prejuízos para a pequena produção agrícola e também para culturas como a soja, o café e a citricultura com possíveis conseqüências negativas à exportação.

A elevação do nível do mar poderá afetar instalações portuárias bem como a população que vive na zona litorânea. Muitas cidades brasileiras sofrerão com os impactos dos eventos climáticos extremos. Nesta primeira semana de março, o Brasil registrou vários recordes de temperaturas, incomuns para esta época do ano. A temperatura na tarde de quinta-feira dia 5/11, chegou aos 43ºC em Barra do Garças, cidade de Mato Grosso na divisa com o sul de Goiás. Outra temperatura que chamou muito a atenção foi 35ºC na região de Cabo Frio, na região dos Lagos, litoral do Estado do Rio. Cabo Frio está numa região de águas frias, onde ocorre o fenômeno de ressurgência subtropical do atlântico sul - afloramento de águas frias do fundo do mar, ricas em nutrientes.

Segundo os cenários do quarto relatório do IPCC, para que tenhamos alguma chance da temperatura média da Terra não ultrapassar 2 graus centígrados, a concentração de Gases de Efeito Estufa (GEE) não deve superar 450 partículas por milhão/ppm. Para termos a certeza que ficará abaixo dos 2 graus, essa concentração não poderia passar de 385ppm. Apenas em 2009, já ultrapassamos esta concentração! Ainda segundo o IPCC, para que a concentração se limite a 450ppm as emissões totais de GEE durante este Século não devem permanecer abaixo de uma emissão média de 18 Gt por ano. Já estamos infelizmente em mais de 40!

O Brasil joga um papel fundamental nesta discussão, sendo hoje reconhecido como quarto país emissor de gases do efeito estufa do planeta, principalmente pelo desmatamento da Amazônia. No entanto, nossa posição diplomática é de grande influência. Temos a oportunidade de assumir a liderança do processo e influenciar tanto os países desenvolvidos como emergentes. Para tanto, o Brasil precisa ter uma proposta audaciosa e assumir compromissos claros em relação a suas próprias emissões, assumindo metas de redução mensuráveis, reportáveis e verificáveis, em todos os setores.

Entre elas, vale ressaltar a do Desmatamento Zero na floresta amazônica uma vez que o próprio Ministério da Agricultura admite que já há espaço para pecuária e agricultura em terras já desmatadas e que a fronteira agrícola hoje já pode ser contida. É necessário uma ação forte para conter o desmatamento em outros biomas, sobretudo no Cerrado, onde as emissões já se igualaram às da Amazônia. Isso depende de fiscalização, mas também de incentivos e projetos sustentáveis beneficiando os produtores para manter a floresta em pé, podendo ser financiado, em boa parte, pelo REDD (programa de redução de emissões por desmatamento e degradação do solo), em discussão nas negociações.

O governo brasileiro parece confuso e dividido com sinalizações contraditórias, inclusive do próprio presidente Lula que ora despreza ora reconhece a importância do tema. Só a mobilização da opinião pública global e da brasileira pode trazer a esperança de alguma mudança nesse problema tão crucial para o futuro de toda humanidade. Por essa razão o movimento Brasil no Clima e o Partido Verde conclamam a população a se mobilizar.

O autor, Clodoaldo Armando Gazzetta, é secretário de formação do Partido Verde - texto organizado e adaptado do PV Nacional para publicação regional

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