O azulzinho não será mais o mesmo a partir de 2010 nas ruas de Bauru. É o que promete o presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), Rubito Ribeiro, quando for realizado novo concurso para contratação de agentes de trânsito, que terão perfil de orientador em detrimento à implacável função de poder de polícia que cada profissional tem de exercer com um talão de multas na mão.
Segundo a Emdurb, para que o azulzinho perca a mania de ser mais agente de multa do que de orientador no trânsito em Bauru, será preciso mudar a classificação das atribuições da função, a forma de contratação dos novos profissionais, a capacitação antes de enfrentar motoristas obedientes, coléricos e desequilibrados nas ruas e até o uniforme.
O agente de trânsito foi contratado em Bauru, no governo passado, para coordenar, disciplinar, orientar e aplicar as infrações de trânsito urbanas que antes eram funções estritamente da Polícia Militar. Mas os flagrantes de desobediência à lei nas ruas e a falta de investimento em treinamento pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) colaboraram para o crescimento do número de multas aplicadas (situação inevitável a partir do aumento da frota e que guarda relação direta com a postura cultural do cidadão frente às normas legais) e, como era inevitável, com a elevação do tom e da quantidade de críticas ao papel do agente.
Fator de equilíbrio
Na visão de Ricardo Pignoli, que coordena o projeto de mudança de comportamento e atitude dos agentes de trânsito na Emdurb, o azulzinho recebe toda a carga de culpa da reação negativa de quem está contra a aplicação da lei.
“Nós começamos a observar, desde o início do ano, que o azulzinho só fiscalizava, sobretudo no Centro. A partir daí começamos a verificar em outras cidades o papel do agente de trânsito e quais as possibilidades de tirar esse peso que recai sobre ele. Acreditamos que se o treinamento e a capacitação apostar no papel do agente como apoio ao trânsito, de abordagem primeiro como orientador, a situação vai mudar”, diz Pignoli.
Ele amplia que com a redução da presença de policiais militares em pontos estratégicos da zona urbana, o agente de trânsito é quem terá de atuar. “Mas isso vai exigir começar do princípio, com a realização de concurso com perfil psicológico e de relações interpessoais direcionadas para esse trabalho, o que inclui treinar para que ele vá para a rua sabendo que primeiro é preciso intensificar o apoio ao cidadão. Não vai deixar de aplicar a lei e nem pode. Não será para ser bonzinho, mas com abordagem direcionada para orientar”, amplia Pignoli.
Para isso, a direção da Emdurb constituiu uma comissão que terá de apontar o que muda nas atribuições do profissional e quais exigências ele terá de apresentar na seleção por concurso. “A comissão avalia a necessidade de contratação empresa especializada em RH para que o concurso traga essas especificidades. Se for preciso vamos mudar nomenclatura do cargo, mas o orientador no concurso terá de passar pela avaliação de perfil psicológico. Depois do concurso, ele não pode ir para a rua antes de treinamento nesta direção”, informa Palamede Consalter Júnior, que dá suporte jurídico à comissão.
O presidente da Emdurb, Rubito Ribeiro, disse que os novos azuizinhos terão “nome, formação, atribuição e até uniforme diferentes, que é para esquecer mesmo do nome que está hoje ligado a multar e não a orientar”, prometeu. Atualmente, a empresa conta com 12 agentes de trânsito.
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Multas por agentes crescem
O agente de trânsito em Bauru aplica infrações que representam três vezes mais o índice de crescimento da frota, na comparação de 2008 com 2009, e mais de 19 vezes o número de multas aplicadas no trânsito urbano em relação aos autos preenchidos por policiais militares.
Com dedicação exclusiva ao trânsito, ao contrário dos policiais militares que contam com outras tarefas no dia-a-dia, os azuizinhos aplicaram 14.640 multas nos oito primeiros meses de 2008, contra 8.298 pela PM no mesmo período. Em 2009, os agentes registraram 20.304 casos de punição por desobediência às leis de trânsito, contra apenas 7.096 dos militares.
A frota de Bauru cresceu, do ano passado para cá, 6,6% (sendo 175.166 veículos no ano anterior, segundo o Departamento de Trânsito – Detran – e 186.836 no último mês de agosto). De sua parte, o comparativo de multas aplicadas apenas por azuizinhos, de janeiro a agosto, traz que o GOT ampliou a produção em 38,6%, contra número estável de autos vindos dos PMs no período equivalente (2008 x 2009). Ou seja, enquanto o GOT elevou o número de infrações de 14.640 para 20.304, a PM contabilizou 8.298 multas em 2008 e 7.096 neste ano, de janeiro a agosto.
Na visão da presidência da Emdurb, a aplicação de multas não terá como ser eliminada, mas a abordagem, postura e comportamento diante do trânsito serão modificados. “Se uma dona de casa pára o carro no meio da rua para o filho descer, o agente tem de atuar na hora e eliminar o risco de acidente inclusive. Se passa no sinal vermelho, tem de agir. Mas se a pessoa chega com o carro e ao estacionar o agente verifica que falta o cartão de estacionamento, o orientador atua primeiro que a multa”, comenta Rubito.