Para um surfista, realizar seu maior sonho significa dropar as ondas gigantes do Havaí. Para um piloto de vôo a vela, isso corresponde a planar nos ares da Nova Zelândia. Ross Southerland, instrutor e piloto neozelandês da modalidade, decidiu dar um tempo na aventura radical de pilotar entre as montanhas de seu país para conhecer as correntes térmicas brasileiras. Nada melhor que conhecer Bauru, capital nacional de vôo a vela, para aprimorar suas técnicas na companhia do amigo e também volovelista Fernando Improta.
“O relevo da Nova Zelândia é muito acidentado, cheio de montanhas e há muito vento. Em Bauru, o relevo é plano, há muito calor e correntes térmicas. Então, para um piloto de vôo a vela é fascinante vir ao Brasil e conhecer um tipo de vôo totalmente diferente do que eu faço no meu país”, diz Southerland.
Na Nova Zelândia, os pilotos voam próximo ao chão e às montanhas. Eles devem pensar muito rápido para que não haja acidentes, o que torna cada vôo uma grande aventura. No Brasil, o vôo a vela é impulsionado por correntes térmicas geradas pelo calor e o relevo plano faz com que os pilotos possam atingir grandes alturas e percorrer longas distâncias. “Para ser completo, um piloto precisa ter o conhecimento desses dois tipos de vôo”, alega Southerland.
A dupla vai enfrentar neste final de semana o desafio de viajar de Brasília até Poços de Caldas, interior de Minas Gerais, a bordo do planador ASH-25. Serão 700 quilômetros percorridos em um dia inteiro de viagem.
“Quero ver de cima as diferenças no relevo e na natureza das regiões. Ver as grandes fazendas de soja e cana-de-açúcar. Lá na Nova Zelândia é tudo muito pequeno”, conta o piloto.
O planador utilizado por eles tem o diferencial de possuir um motor. Ao contrário dos planadores comuns, que são rebocados por outro avião, o ASH-25 é impulsionado por seu próprio motor durante a decolagem até a altura ideal para que possa planar.
A visita de Southerland a Bauru significa a abertura de uma porta para o intercâmbio de pilotos bauruenses. “Estamos abertos para receber os brasileiros na Nova Zelândia”, convida o piloto.
Improta, que foi aluno de Southerland em 2005, ressalta a importância de aprender novas técnicas de vôo. “Às vezes tem campeonatos mundiais de vôo a vela, em locais como a Itália, que tem relevo montanhoso, e os pilotos brasileiros não têm a menor chance porque não aprenderam a voar em locais como esse. Estudar na Nova Zelândia seria um grande ganho no sentido de aprender essas técnicas. A troca de conhecimento é fundamental no aperfeiçoamento”, explica.
Southerland está no Brasil há 23 dias passando férias e já teve oportunidade de conhecer outros Estados. Como todo estrangeiro, encantou-se com a hospitalidade do brasileiro e com a caipirinha. Agora, ele quer conhecer o “céu brasileiro”.
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Tradição
A localização geográfica e o clima fazem de Bauru uma das melhores regiões do País para se praticar o vôo a vela. O volovelismo é base para o ensino da aviação por ser considerada a forma mais harmoniosa de voar.
Sede de importantes campeonatos de vôo a vela do Brasil, o Aeroclube de Bauru recebe freqüentemente pilotos de todo o País para descobrir novas técnicas e praticar nos céus da cidade. Bauru possui alguns dos melhores pilotos de planador em atividade no Brasil, como é o caso de Cláudio Junqueira, 11 vezes campeão brasileiro, de Batata, oito vezes campeão brasileiro, e de Henrique Navarro, recente revelação bauruense.
O Aeroclube de Bauru possui vasta frota de planadores, que vai desde os mais modernos modelos de competição até raridades, como o exemplar único do Spalinger S-25, de projeto suíço, embora construído em Bauru no ano de 1953. Outra raridade é o Laister-Kauffman LK-10, construído nos EUA em 1945, o mais antigo planador em atividade em Bauru e, talvez, no mundo.