Articulistas

Sem ciência e sem capricho

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 2 min

Cansado dos números, o engenheiro comprou uma chácara no nordeste para onde se mudou. Julgando simples, enveredou-se a cultivar frutas, entre as quais maracujá. Reprovava a falta de ordem e capricho do vizinho. Contratou um carpinteiro para fazer um amplo suporte para um futuro caramanchão. Tanto adubou as mudas que algumas feneceram. As que vingaram cresceram vigorosamente. Não demorou para formar um verdejante caramanchão onde apontaram os botões prometendo as famosas flores do maracujá cantados por poetas - “não te enojem teus ouvidos de tantas rimas em ‘a’, mas ouve meus juramentos, meus cantos ouve, sinhá; te peço pelos mistérios da flor do maracujá”.

Nada mais apropriada que uma rede debaixo do caramanchão. Instalou os ganchos que no nordeste se chama armadores. Dependurou sua rede de longas varandas de crochê. Deitou-se refestelando-se com o êxito de sua empreitada de lavrador. Logo um zumbido atrapalhou seu espírito citadino. Mamangaba, bicho feio cuja picada parece matar qualquer vivente. Armou-se de inseticidas e aplicou-lhes generosas lufadas sobre elas. Matou-as todas. Que alívio. Voltou todas as tardes (e manhãs também) a se refestelar na rede de belas varandas crochetadas por hábeis mãos femininas. Como de costume, o vizinho apareceu para ofertar frutos da terra por ele amainada: mandioca, abóboras e maracujás. Como assim, maracujás? Estranhou que em seu caramanchão caprichado não havia nenhuma fruta. No do vizinho - sem ciência e sem capricho - abundavam lindas frutas.

Não se dispôs a perguntar ao vizinho analfabeto. Pôs-se a indagar a seus científicos botões sobre as causas próximas e remotas. Não encontrando explicação, perdeu o sono, mas não se rendeu à consulta ao vizinho sem ciência e sem capricho. Esgotado pela insônia, resolveu comentar com o vizinho: - Meu pé de maracujá não deu nenhuma fruta! - Pensei que o doutor só gostava da sombra e das flores. - Mas eu esterquei e reguei bastante! - Matou todas as mamangabas! - Não gosto do zumbido desses bichos feios. - Pois é a mamangaba que faz a flor virar maracujá. - Como assim?

- Ela beija uma flor, depois beija outra. Aí nasce a fruta piquinininha. Vai crescendo, crescendo até amarelar e virar essa gostosura. - Ah é? - O doutor conhece a joaninha? Ela também tem muita serventia pra lavoura. As abelhas, as minhocas, os passarinhos, todas as criaturas de Deus (afirmou erguendo o chapéu). - É isso a tal da biodiversidade? - Sei nada não dessa ciência das alturas, mas o que Deus fez alguma serventia havera de ter. Não quero ensinar ao doutor - Deus me livre dessa pretensão - mas o pé de abóbora não carece de jirau.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Lins, professora aposentada da Unesp e colaboradora de Opinião

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