“Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será possível desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de 300 anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância”. A frase é de Joaquim Nabuco, em seu “O abolicionismo”, escrito em 1884. O escritor, político e diplomata estabelecia a educação dos libertos e de seus descendentes como uma verdadeira opção republicana, não só para a redução das desigualdades legadas pela escravidão, mas também para fomentar um desenvolvimento possível e necessário ao País. Foi preciso mais de um século para que começassem a implantar políticas públicas necessárias à integração entre brancos e negros do Brasil. E a resistência ainda é muito grande. Encontra opositores até entre os próprios afrodescendentes. Há os que ainda esperam o ensino público ótimo e acessível em todos os níveis, para depois promover a alavancagem dos negros e pobres.
Deve ser herança do domínio lusitano que negava a existência autônoma. Modernamente fala-se em meritocracia e livre concorrência. Tudo porque se optou por consolidar nosso nacionalismo com base num universalismo vazio, ancorado no mito da democracia racial. Hoje, há 121 anos da libertação dos escravos, todas as estatísticas mostram uma abolição inconclusa. O mercado de trabalho continua travado não só para negros e pardos, como também para as mulheres, para os jovens sem experiência, para os deficientes e reabilitados. Todos dependem de cotas para não serem condenados à miséria até o final de suas vidas.
Há seis anos, uma das alternativas a este quadro começou a ser traçada e já se materializou em dezenas de universidades públicas e muitas instituições privadas. As políticas de inclusão, dentre eles as cotas, são caminhos viáveis e remetem a um novo modelo de desenvolvimento, pois se assentam na promoção da diversidade, sem revanchismo, como fio condutor para redução de nossas injustiças históricas. Esse significativo processo de inclusão encontra-se em cheque no Supremo Tribunal Federal, instituição onde um negro conseguiu assento e toga, pela primeira vez desde sua criação no Império. Espera-se, pelo amor não só aos negros como ao Brasil, que os julgadores de última instância promovam a realidade democrática. Claro que não são só os negros que devem ter acesso às oportunidades. Os pobres também, independentes da etnia. A senzala social é grande e depende da “consciência branca” para ser banida do processo histórico. Nela habitam negros, pardos, brancos, amarelos e índios. Também mulheres, velhos e crianças. Aposentados e assalariados. Favelados, suburbanos, sem-terra, sem-teto... Sem-nada e sem-tudo. Todos condenados, não mais pela cor da pele, e sim pela falta da libertadora “consciência-educação”.
Talvez a degradação humana seja o pior pelourinho. Somos açoitadas todos os dias pelos abusos de poder, pelos assaltos fraudulentos às contas públicas, pela inútil partidarização dos discursos, de problemas que continuam sem solução, pela roubalheira descarada, pela formação de uma casta de malversadores de mandatos populares. O exemplo de Palmares e dos seus lideres Ganga-Zumba e Zumbi, gerou o que hoje chamamos de “Consciência Negra”. O que deveria ser para muitos um ícone de resistência e contraposição ao que vemos hoje, para milhões de “negras consciências” virou mais um feriado. “Lula - o filho do Brasil”, saiu da pobreza para tornar-se presidente da República. Reconheça-se o seu esforço, dedicação e capacidade de liderança. O povo vai verter rios de lágrimas com a história da sua vida contada na tela grande. Lula é uma das poucas exceções, o que não deve encher de ilusória esperança milhões de brasileiros excluídos. Estes ainda aguardam o Zumbi da nossa era - se é que virá - para guiá-los a um novo quilombo. Esse Zumbi metafísico enfrentará resistência, já que a atuação dos grilhões tem sido eficaz em limitar o entendimento do povo. Com líderes carismáticos ou sem eles, o brasileiro tem que se conscientizar de que é necessário romper com o que está posto, para não cairmos em outra senzala. No degrau de cima, na casa-grande, que também pode ser chamada de Senado, Assembléia ou palácio, os senhores-de-engenho acertam seus mesquinhos conchavos e festejam à custa dos recursos públicos.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC