Tribuna do Leitor

Contra fatos não há argumentos II


| Tempo de leitura: 4 min

De fato há argumentos que são contra os fatos. O fato, ação ou coisa que se considera ocorrida ou em processo de realização pode ser tratado e apresentado de várias maneiras e com diferentes finalidades, sempre buscando apresentar-se de forma coerente. No entanto, o leitor interessado em algum acontecimento já aprendeu a reconhecer que alguns discursos somente podem se apresentar coerentes quando fundamentados na omissão dos fatos decisivos e pelo destaque dos fatores secundários. Já percebeu que o mentiroso treinado normalmente funciona assim. Conhece também que o antídoto a essa prática comum é procurar observar a realidade considerando seus vários aspectos, desconfiando da repetição infinda de um fragmento de realidade... Caiu o pé de laranja. A situação em questão refere-se ao constrangedor fato de uma grande empresa ter invadido terras públicas (de todos) para acumular uma enorme fortuna. Com fábricas no Brasil, Portugal e EUA, que contabiliza recursos por intermédio de uma empresa das Ilhas Cayman (Revista Veja 14/5/2003), sua produção não beneficia o conjunto da população brasileira. Parece que não se preocupam com a vizinhança e nunca entregaram aquele solidário bolo de chocolate por cima da cerca. Pode ser falta de tempo para perceber que ali lutam com a vida um grupo de trabalhadores que querem trabalho digno e que um pedaço daquela terra pode significar muita coisa: a possibilidade de alimentar seus filhos com uma dieta digna, mesmo que sem muito luxo e talheres refinados, de sair debaixo da lona quente das barracas, mesmo que sua moradia não tenha tantas suítes, pode representar a perspectiva de que seus filhos estudem, sejam ensinados e aprendam, deixando de consumir energia com horas de deslocamento para chegar à escola e enfrentarem preconceito.

Esses anseios, no caso sintetizados por um pedaço de terra para que possam trabalhar, não caracterizam novidade alguma e estavam já presentes em outras gerações de trabalhadores expropriados da terra. A concentração de riqueza e produção despreocupada com a vida humana somente engrossa o grupo dos insatisfeitos com o modo de existência que lhes restou. O elemento que traz certa novidade é que aqueles vizinhos se organizaram na luta pela democratização da terra. Esse processo possibilitou acumular saberes e permitiu acompanhar a citada invasão de terra por uma potencia econômica. O movimento dos trabalhadores sem terra apresenta a possibilidade de lutar para que essa terra, invadida pelos senhores do dinheiro, seja produtiva para o segmento mais empobrecido da sociedade. O fato de não ficar esperando um farelinho de bolo por cima da cerca é o que causa irritação em um pequeno setor da sociedade, e, o que é pior, pipocam os defensores do agressor, bradando sobre a a violência... Caiu o pé de laranja.

De fato, mas na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) Jean Ann Bellini, representante da Comissão Pastoral da Terra, advertiu que a violência no campo aumenta em torno de três eixos, dos quais destaco a exploração de escravos: afirma que apesar de 26 mil pessoas terem sido libertadas entre 2003 e 2008 constata um aumento da relação de trabalhos forçados no sul e no sudeste do País. Não seria violenta a situação de 26 mil trabalhadores necessitarem ser resgatadas da situação de super exploração no trabalho e constatar que esse número aumenta nas regiões mais ricas do País? Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009), os conflitos agrários marcam situação de violência contra trabalhadores rurais, apresentando práticas que em nada se assemelha a da boa vizinhança: no primeiro semestre de 2009, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e seis pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano... Caiu o pé de laranja.

Em artigo do Estado de São Paulo de 1/11/2009, José de Souza Martins apresenta informações que apontam a importância econômica e social da agricultura familiar. Ela é responsável pela produção de “87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 21% do trigo e até 16% da soja. Literalmente, é a agricultura familiar que alimenta o Brasil, com a altíssima produtividade que esses dados revelam”. Não é do agronegócio e da monocultura que a população se alimenta. O suco dessa laranja, que invade terra pública, não tem enchido barriga de ninguém, mas sim o bolso de quem está com a barriga e os cofres cheios. Quem de fato derrubou os pés de laranja? Não teriam sido a alta concentração de terra, a monocultura, a relação predatória com a natureza que o agronegócio representa? Ou as condições que produzem 71 organizações de sem-terra atuando no País?

Osvaldo Gradella Júnior, Nilson Berenchtein Netto, Juliana Campregher Pasqualini, Juliana Roman dos Santos Oliveira, Sueli Terezinha Ferreira Martins, Lilian Magda de Macedo, Irineu Aliprando Viotto Filho, Suzana Marcolino, Ana Lúcia Martins, Angelo Antonio Abrantes, Juliana Peixoto Pizano, Nicelle Juliana de Paula Sartor, André A. Padovezi Henrique Meira de Castro, Lais Sandi Foganholo e Rosiane de Fátima Ponce

Comentários

Comentários