Bairros

Empresas familiares influem na economia

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

A realização de um sonho ou uma forma de driblar o desemprego. Qualquer que seja o motivo que impulsione o surgimento de empresas familiares, é fato que elas são de extrema importância para a economia da cidade.

Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Nico Mondelli - ele próprio oriundo de uma empresa familiar -, as empresas familiares representam história, cultura, respeito, tradição, política e desenvolvimento para a cidade. “Bauru é uma cidade cosmopolita que acolheu, durante sua história, pessoas de várias culturas e países do mundo. Aqui foi o lugar escolhido para viver em família e montar seus negócios. Temos empresas de vários setores da economia, cuja cultura e tradição estão interligadas com o desenvolvimento da cidade”, afirma.

A economista Salete Rossini Lara concorda com Mondelli. “É viável e saudável a união de familiares para criar uma empresa. É uma boa alternativa para gerar renda. Atualmente as empresas familiares têm grande representatividade na economia de cada município. Elas contribuem muito para o desenvolvimento local”, diz.

Salete ressalta a necessidade de cuidar da saúde destas empresas desde o seu surgimento. Ela explica que, antes de abrir uma empresa, é necessário buscar ajuda. “Existem muitas questões que envolvem a constituição de um patrimônio, como aspectos jurídicos e mercadológicos. A figura de um administrador profissional ou de um economista é essencial pois, antes de abrir uma empresa, é preciso definir o ramo de atuação e o local de instalação.”

De acordo com o administrador de empresas Alexey Carvalho, o comércio é o setor que abocanha o maior número de empresas familiares. “Indústrias, comércios ou prestadoras de serviços vão enfrentar os mesmos problemas. É notável uma concentração de empresas familiares atuando no comércio, isso ocorre por conta deste segmento ter atividades mais objetivas. O ramo das indústrias e das prestadoras de serviço exigem maior capital e capacitação”, explica.

Ter um bom planejamento também é fundamental. “Estabelecer objetivos e metas claras, ter uma organização estrutural mínima, destinar corretamente as verbas da empresa e profissionalizar o ambiente é essencial para alcançar o sucesso”, indica o analista Newton Rosseto, do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). De acordo com estimativas do Sebrae, a mortalidade das empresas familiares é alto: 35% das empresas fecham com até um ano de vida e 56% encerram o funcionamento antes do final do sexto ano.

Salete aposta em ajuda profissional e comedimento para garantir o sucesso do empreendimento familiar. “Imagine que a empresa é uma galinha de ovos de ouro. Se você sacrifica a galinha, ela não produzirá mais. Portanto é necessário alimentá-la e dedicar a ela cuidados para que prospere”, compara.

Outro fator decisivo é o controle financeiro. “Os empreendedores precisam ter o pé no chão. Não se deve sair por aí fazendo empréstimos e gastando o que ainda nem lucrou. Eu indico fazer uma poupança para a empresa, ir guardando o que sobra aos poucos. Quando for necessário, o dinheiro estará disponível”, alerta Salete.

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‘Faria tudo diferente’

Custos incompatíveis com os lucros, estresse e dificuldade em distribuir as funções foram fatores determinantes para que o ex-comerciante José Carlos Rodrigues Bighetti optasse pelo fechamento de sua empresa.

Ser dono do próprio negócio era, além de um sonho, uma necessidade. “Estava desempregado quando decidi abrir uma papelaria. Escolhi o ramo porque não tinha concorrentes próximos ao local onde me instalei e porque são produtos de baixo valor, que não gerariam inadimplência”, relata.

Trabalhar em família foi a alternativa encontrada por Bighetti para driblar os altos custos dos funcionários e dos impostos. Os quatro filhos e a esposa contribuíram para a prosperidade do negócio, e Bighetti chegou a manter quatro estabelecimentos funcionando ao mesmo tempo.

Mas com o tempo, as dificuldades começaram a aparecer. “Foi ficando complicado separar as coisas. A gente acaba estressando o convívio familiar em função do negócio. O assunto passa a ser o mesmo em casa e na empresa”, conta.

De acordo com ele, as estruturas da empresa estremecem quando alguns elementos passam a afetar diretamente a vida da família envolvida. “Meus filhos optaram por seguir caminhos diferentes. Não tinha como distribuir as tarefas e tudo dependia de mim. Cheguei em um momento de não poder ficar doente para não deixar a empresa sozinha. Minha ausência significava perda. Férias, viagens e décimo terceiro estavam fora de cogitação para mim”, enumera.

O fator financeiro também preocupava Bighetti. “É necessário investir sempre. Quando não se tem um planejamento você acaba ‘comendo’, ‘bebendo’ e ‘passeando’ o estoque. Porque, ao invés de investir em combustível para a empresa, você acaba usando o dinheiro para despesas pessoais”, alerta.

A decisão de fechar as portas veio acompanhada de uma boa oportunidade de emprego fora da cidade. “Eu estava saturado, não agüentava mais. Foi quando surgiu um convite para trabalhar em uma fábrica de propriedade de meu irmão, em São Paulo. Não pensei duas vezes! Baixei as portas e vendi o negócio. Estou adorando minha nova vida”, comemora.

Bighetti analisa que teve acertos e erros no comando da empresa. Mas, se fosse preciso começar tudo novamente, faria diferente. “Certamente eu buscaria ajuda especializada”, aponta Bighetti, que logo descarta a hipótese. “Estou muito bem onde estou”, garante.

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Trabalhar em família exige preparo psicológico

Se a saúde da empresa passa por dificuldades sob o comando de uma família, o mesmo acontece com o psicológico das pessoas envolvidas. O convívio familiar no patamar profissional pode tanto prejudicar quanto trazer benefícios. De acordo com a psicóloga Luciana Silva Zanelato, tudo vai depender de como a família irá gerenciar as emoções.

Para Luciana, o principal desafio é não misturar as coisas. “É preciso saber separar o contexto familiar do profissional”, indica a psicóloga, para quem os frutos positivos também podem ser extraídos desta relação. Ela aponta a confiança e a credibilidade, presentes no âmago familiar, como sendo os principais.

Segundo Luciana, esses sentimentos podem ser externados e involuntariamente transmitidos aos clientes. “Quando as pessoas percebem o interesse em torno de um patrimônio comum, a família tende a ficar mais unida. O sentimento de ter um negócio próprio gera motivação, responsabilidade e prazer. O bom conhecimento entre os membros da família melhora as chances de suportar as crises e estimula a busca por soluções”, enumera.

Mas as dificuldades também marcam presença nos negócios familiares. “Pode existir uma disputa entre familiares, ocasionando o estresse e perda de foco. É grande o risco da empresa ser deixada em segundo plano. Confundir relações familiares com a hierarquia da empresa também é muito comum. Isso pode gerar dificuldade em demitir”, releva.

O critério de avaliar o perfil de um candidato antes de definir seu cargo também deve ser aplicado nas empresas familiares. “O ideal é contratar uma consultoria para fazer isso; é a única forma de atingir a imparcialidade. A adoção desta prática elimina uma boa parte do antagonismo e das desavenças, visto que não são os familiares responsáveis por definir quem será contratado, promovido ou desligado da empresa”, propõe a psicóloga.

Ela recomenda, ainda, buscar ajuda de um psicólogo em casos mais complicados. “Uma boa alternativa é procurar um profissional especializado em terapia familiar ou de casal para resolver os conflitos pessoais que afetam o desenvolvimento organizacional.”

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