Tribuna do Leitor

24 de novembro - 1859


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A primeira edição teve a tiragem de apenas l.250 exemplares. Porém, as conseqüências desta publicação não tiveram similar em toda a historia do homem, produzindo uma onda de perplexidade e ao mesmo tempo grande curiosidade sobre o assunto ali tratado.

Pela primeira vez um assunto científico provocou calorosos debates em todas as camadas sociais, sem distinção. Doutores, jornalistas, homens de negócios ou das letras comerciantes, professores, religiosos, criadores, governantas, cidadãos comuns, enfim, pessoas de todas as ocupações e classes sociais leram o livro ou a respeito das conclusões ali expostas.

Não apenas na Grã-Bretanha. Na França, Suécia, Itália, Rússia, Alemanha, América do Norte, e progressivamente no mundo todo se tomava conhecimento e se discutia a Teoria da Evolução por seleção natural, cada país dentro de seus contextos culturais.

Isto aconteceu rapidamente, há l50 anos, com a publicação da A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Até sua morte, em l989, Darwin publicou 6 edições num total de l8 mil exemplares logo traduzido em l8 idiomas. Reconhecido como o mais importante da Ciência, o livro A Origem das Espécies fez de Darwin o primeiro escritor cientifico popular.

O Beagle, na sua viagem de 5 anos, cruzou 48 mil quilômetros de mares, passando por ilhas e varias partes do mundo, inclusive Brasil, onde Darwin apenas coletou exemplares de animais e plantas e fazia o seu diário. No regresso, já em casa, é que ele deu início aos estudos e pesquisas que foram concluídos muitos anos depois.

Durante este período, Charles Darwin escreveu e publicou vários trabalhos em jornais e revistas especializadas. Antes e depois de A Origem, publicou também outros livros tratando de assuntos correlatos. Dentre eles, destaca-se A Descendência do Homem, onde tratou da evolução do homo sapiens, assunto não abordado por ele anteriormente.

Embora não tivesse conhecimento dos trabalhos de Mendel sobre hereditariedade, suas observações e conclusões caminharam naquela direção e, hoje, com a “biologia molecular”, teve seus estudos corroborados. Esta biologia não só confirmou a evolução, mas também a origem comum de todos os seres vivos, como imaginava Darwin, e ainda como estes se distribuíram pela superfície da Terra. Talvez esteja aí a grande beleza e profundidade de nossa Ciência. Durante muito tempo, desde a antiguidade, filósofos e naturalistas levantaram questões sobre a natureza humana. Afinal, quem somos? De onde viemos? Para onde iremos?

Hoje, graças à evolução darwiniana, temos algumas respostas. Na grande árvore genealógica dos seres, os humanos, ocupamos a extremidade de um de seus galhos. Em outras extremidades estão diversos outros animais e plantas. Hoje sabemos que não temos, dentro da evolução, posição diferenciada entre os organismos vivos. Como afirmam alguns biólogos, somos o último primata africano. Em nossa origem comum viemos no tempo, 4 bilhões e 400 milhões de anos atrás.

Provavelmente surgimos com a primeira célula que conseguiu se replicar em outras, que se replicaram em outras mais, e assim sucessivamente. (Daí Richard Dawkins chamar a vida de hereditariedade). Todo esse inicio deve ter surgido muito provavelmente naquela “lagoa morna” darwiniana, ou naquela “sopa quente primordial” de muitos estudiosos. Onde maior maravilha? A grande irmandade de todos, não só humanos, mas de todos os seres vivos.

Neste ponto, retorno à minha adolescência, nos bancos escolares, onde li e ouvi, pela primeira vez, sobre o que escrevo agora: “uma célula orgânica aparece no infinito do tempo. E vibra e cresce e se desdobra e estala num segundo. Homem, eis o que somos neste mundo”(Esta vida , de Guilherme de Almeida). A beleza da ciência na beleza da poesia.

Se o evolucionismo respondeu quem somos e de onde viemos, a terceira pergunta ainda ficará sem reposta por muito tempo.

Para onde vamos? Ninguém de bom senso tentaria responder, pois no panorama atual, com a superpopulação do planeta e a grande destruição que se vê da Natureza, nosso futuro se apresenta com um céu escuro, nuvens carregadas e grandes tempestades anunciadas. Enquanto este futuro não chega, vamos nos lembrar sempre do dia 24 de novembro de l859, reverenciar e aplaudir Charles Robert Darwin.

Antonio Grecco

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