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À mestra Neuza Azevedo, com carinho...

Olga Viotto Coube
| Tempo de leitura: 3 min

Já é noite destes 19 de novembro e, agora, recolhida em minha casa de São Paulo e distante de Bauru é que encontro forças para lhe dar o meu adeus e relembrar tão belos momentos que vivenciamos juntas...

Não pude estar aí para fazê-lo pessoalmente, por questões familiares e que meus amigos conhecem...

Logo pela manhã, recebi um telefonema de minha filha Stella, que com precaução e preocupação deu-me a dolorosa e triste notícia de sua partida... Lágrimas rolaram pelas minhas faces...

O dia todo, os meus sentimentos estiveram revoltos dentro do meu coração... Flashes espocavam em minha memória trazendo imagens e recordações...

Tudo isto era permeado pelas saudades que já sinto de você... E, de repente, surgiu do passado, os tempos antigos de Bauru, uma cidade onde nós nos conhecíamos e sabíamos onde moravam os nossos amigos...

Tempos distantes e diferentes... Já então, a sua figura se destacava – Lembrei-me de sua beleza e elegância desfilando pela Lalai da Rua Batista, nos bailes do Automóvel e do Tênis...

Você era chamada de Kim Novak pela semelhança com aquela atriz, que era então a deusa de Hollywood... Mas lhe digo com toda sinceridade: - Você era ainda mais bonita do que ela...

Quantas vezes, passadas várias décadas, quando estávamos juntas com outras amigas, alguém se acercava de nós e lhe dirigia maravilhosos elogios...

O tempo passou... Cuidamos da família, lutas travamos e eis que em 1982 fiquei viúva e você, certamente compungida pela minha dor me chamava insistentemente, tentando amenizar aqueles dias...

Eu agradecia e o livro era o meu companheiro... Foi então que ao ler a biografia de Tom Jobim, escrita por sua irmã, e no qual eles se perguntavam qual é a arte mais nobre: - a literatura ou a música? – apresentando os argumentos, concluíram: a música congrega as pessoas que estão reunidas, e o livro, apesar de companheiro, nos leva ao isolamento e solidão...

Num relance, lembrei-me de seus convites e resolvi aceitá-los... Reuníamos quase todas as noites no Fran’s Café. A conversa e a companhia me encantaram. Eram pessoas que liam diariamente o Estadão, e com embasamento e conhecimento, discutíamos política, filosofia, religião, moral, para depois terminarmos com uma deliciosa sessão de amenidades. Íamos para nossas casas com o coração leve e ameno...

Mal sabia eu que você, através desses encontros, já estava me ensinando tantas coisas sobre a vida, a amizade, valores, aceitação das transformações, etc, etc...

Foi, então, que comecei a lhe chamar de Mestra e percebi como você era sábia, não só pelos seus conhecimentos, mas sobretudo na condução da vida...

Sua inteligência, cultura, sagacidade, sinceridade, foram me revelando uma Neuza que aprendi a admirar e respeitar... Sua companhia era sempre agradável...

Fizemos você e nossos “Thiagos” (filho e neto) uma viagem curta, mas memorável a Punta de Leste... Divertimo-nos, vimos shows, largos papos, conclusões sempre felizes e com a noite terminando num joguinho no Cassino...

Como nos conforta o coração ter tantas coisas boas para relembrar e que não se apagarão jamais...

Você estava sempre alegre, impecavelmente penteada e maquiada (o batom jamais foi retocado!!!)... Você esbanjava uma “joie de vivre” contagiante e constante...

A grande lição que você me deixou, Neuza, é aquela da canção que diz: - “É Preciso Saber Viver”...

Esta é uma herança que ninguém e nem mesmo o tempo poderá nos roubar...

Você já está nos fazendo muita falta e haveremos de recordá-la hoje e sempre...

Adeus Neuza, até a Eternidade... De quem teve a honra de ser sua amiga.

Olga Viotto Coube

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