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Dr. Automóvel: Manual do carro importado usado

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Nosso amigo leitor Augusto de Bastos nos mandou uma carta dizendo que há cerca de um mês comprou um Opel Calibra em uma loja em S. Bernardo do Campo – SP. O carro está bom, ano 1994 com motor 2.0 16V, modelo GSI, sem problemas mas veio sem o manual do proprietário. Já procurou na internet, filiou-se ao Clube do Calibra, fez de tudo mas nada. Aí, eu pergunto: por que esta mania de vender um carro usado sem o manual? Para que tirá-lo do porta-luvas, onde deveria lá permanecer sempre? No mínimo, para não deixar que o novo proprietário perceba que as revisões não foram feitas ou que a quilometragem real foi alterada. Mas vamos em frente. No caso do Calibra do nosso amigo, é importante saber que a mecânica dele é quase a mesma do nosso antigo Vectra, como ele mesmo acabou descobrindo, e sua manutenção pode ser feita em qualquer oficina de gabarito ou em concessionária. Ele reclama que às vezes acende uma luz no painel com o símbolo de um motor com um raio dentro, e como não tem o manual não sabe o que significa. Este símbolo é padrão mundial, norma DIN, e é um alerta para possíveis problemas nos sistemas de injeção e ignição do motor. Vale para qualquer carro moderno. Pode significar que as velas estão precisando ser trocadas, problemas nos bicos injetores, cabos de velas com fuga de corrente ou várias outras coisas. Quando este símbolo acende, o recomendado é levar o carro a uma boa oficina e escanear o motor para descobrir a origem do defeito e corrigi-lo antes que o problema possa ficar maior.

Vale sempre lembrar que não é porque o carro é importado, que ele seja considerado um extraterrestre. Todo carro comum que se vê nas ruas (não estamos falando de esportivos de luxo, mas de carros acessíveis) tem semelhanças e geralmente, na maioria das vezes, compartilham plataformas conhecidas, daí a possibilidade de importação sem ter que manter uma rede de assistência técnica instalada. Os veículos que a GM do Brasil fabrica aqui são projetos oriundos da Opel alemã, que é o braço da GM na Europa. Portanto, os carros que a própria GM importa como o Calibra do Augusto ou do conhecido Chevrolet Tigra, por exemplo, usam a mesma plataforma conhecida do Vectra antigo e do Corsa, respectivamente, portanto sua manutenção é bem conhecida dos mecânicos nacionais. Um VW importado tem muita tecnologia mas não deixa de ter o mesmo DNA que um carro nacional da marca.

O manual dos importados é mais importante para as regulagens de ergonomia como posição de bancos e espelhos, por exemplo e para o conhecimento e bom uso dos equipamentos específicos de cada carro. Existe uma infinidade de botões e interruptores no painel e muitos não sabem para que servem. O manual traz estas e muitas outras informações relevantes, como acessibilidade dos compartimentos de passageiros, bagagem e motor, posição de maçanetas e travas, detalhes tais como regulagem de apoio lombar e do volante, enfim coisas específicas do design de cada carro. Daí a importância de comprar um carro usado com o respectivo manual.

Vai um comentário meu: sem esse eufemismo de “seminovo”, saiu da garantia é carro usado mesmo e não tem frescura. E mais ainda, fica a recomendação de que na avaliação de um carro usado para possível aquisição, leve em conta se ele vem ou não com os manuais do proprietário e o de garantia preenchido. Isto vale como uma declaração de autenticidade de origem do veículo. Eu fui ver uma vez um belo Mondeo usado em uma concessionária para comprar e o vendedor jurou que o carro era de um único dono e que tinha 56.000 km originais. Na primeira batida de olhos vi que a pedaleira estava gasta e os pneus novos, portanto tinha bem mais quilometragem do que isso. Abri o porta-luvas e realmente o manual estava lá, com a última revisão completa feita aos 140.000 km... Pra que baixar a quilometragem? Se o carro tem dez anos de uso, é de se esperar que tenha no mínimo 100.000 km rodados e que tenha alguns pequenos defeitos normais de uso, ninguém é bobo. Um carro bem mantido com 140.000 km rodados é infinitamente melhor do que outro com 56.000 que nunca trocou o óleo ou fez manutenção, por exemplo. Podem procurar carros usados da década de 90 expostos em lojas à venda e a grande maioria estará com os odômetros marcando menos de 100.000 km. Comprove! A honestidade ainda é a melhor imagem da revenda, só que não é muito apreciada no mercado por aqueles que sempre querem levar vantagem e enganar os outros.

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.

Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

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