Geral

Em Bauru, violência afeta mais as pessoas acima dos 40

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Uma tese bastante difundida nos meios acadêmicos afirma que o jovem é a principal vítima da violência. Mas, em Bauru, essa máxima pode não ser tão verdadeira assim. Dados de um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado anteontem, demonstram que o número de mortes violentas tem diminuído entre os indivíduos com menos de 40 anos de idade. Por outro lado, cresceu a quantidade de óbitos dessa natureza entre os mais velhos.

De acordo com a pesquisa, 110 pessoas entre 0 e 39 anos morreram de forma violenta, em 2005, contra 84 em 2008. Essa categoria abrange óbitos sem causa natural como afogamentos, suicídios, homicídios e acidentes de trânsito.

Ainda segundo o IBGE, em 2005 ocorreram 83 óbitos violentos de indivíduos com mais de 40 anos. Esse número cresceu para 104 em 2007, e subiu para 119 no ano passado. Os homens continuam sendo as principais vítimas desse tipo de morte, embora a participação das mulheres nos índices tenha aumentado significativamente.

Em 2005, aconteceram 161 mortes violentas de indivíduos do sexo masculino, contra 146 no ano passado. Entre as mulheres, a quantidade de óbitos dessa natureza passou de 33 para 57, no mesmo período.

O psicólogo bauruense Ulisses Herrera Chaves acredita que, por um lado, os números do IBGE podem refletir um avanço da violência no Brasil. Por outro lado, ele lembra que, nos últimos tempos, houve um aprimoramento na coleta de dados estatísticos no Brasil.

“O fato de mais mortes sem causa natural terem sido registradas em 2008, significa que o País está mais violento? Se pensarmos que, antigamente, muitos casos sequer eram relatados às autoridades, fica difícil sustentar qualquer hipótese nesse sentido”, afirma. Na opinião de Chaves, tornou-se mais honesta a forma como são coletadas as estatísticas sobre o tema no Brasil.

Diferenças

Comparados com as estatísticas do governo do Estado, os dados da pesquisa do IBGE podem parecer contraditórios, à primeira vista. Em 2008, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), ocorreram em Bauru 34 homicídios dolosos e 29 culposos (sendo que 28 foram relacionados a acidentes de trânsito), além de três latrocínios - num total de 66 mortes violentas.

O delegado-assistente Antônio Pimenta Júnior, responsável pelo setor de comunicação social do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 4 (Deinter-4), acredita que muitos dos casos registrados nas estatísticas do IBGE possam nem ter ocorrido em Bauru.

“Como Bauru é um importante centro médico-cirúrgico da região, costuma receber pacientes de diferentes lugares. Pode ocorrer de um acidentado sofrer acidente em outra cidade e depois ser encaminhado para cá. A violência não aconteceu aqui, mas a morte acaba ficando registrada nos cartórios locais”, argumenta.

Ainda assim, ele prefere ser cauteloso ao analisar as estatísticas da própria secretaria. “É complicado dizer que os números são baixos, pois se tratam de vidas humanas. Nossa intenção, enquanto polícia, é que nenhuma morte violenta ocorresse. Posso garantir, porém, que os dados apresentam uma tendência de queda. Estamos trabalhando para que caiam ainda mais”, afirma Pimenta Júnior.

O tenente-coronel Benedito Roberto Meira, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), acredita que é necessário mais rigor nas penas contra os adultos que infringem as leis.

“Depois que a pessoa atinge uma certa idade, não adianta você querer apenas educá-la. É preciso também punir com firmeza - só assim o indivíduo saberá que não vale a pena tentar burlar as regras da sociedade”, pensa Meira.

Atualmente, o 4.º BPMI tem priorizado crianças e adolescentes como público-alvo em suas ações preventivas e educativas. “Atuamos em diversas frentes, pois sabemos que a violência é uma questão bastante complexa. Precisamos atacar o problema na base, evitando que os jovens dêem o primeiro passo em direção ao mundo da criminalidade e das drogas”, afirma Meira.

Na opinião dele, as ações preventivas da PM têm surtido efeito, com a queda dos índices de violência entre as faixas etárias mais jovens. Este ano, por exemplo, dos 30 acidentes de trânsito com vítima fatal registrados em Bauru, apenas um envolveu uma pessoa com menos de 18 anos de idade.

____________________

‘Violência é questão de saúde pública’

O psicólogo bauruense Ulisses Herrera Chaves acredita que a violência não pode mais ser tratada apenas como uma questão que diz respeito à polícia. “Esse problema é complexo demais. Eu diria que é um caso de saúde pública, que requer ações preventivas por parte dos vários setores do governo para ser solucionado”, pensa.

Para Chaves, o sistema público de saúde deveria preparar seus agentes para saberem lidar com os indivíduos envolvidos em situações violentas. “O problema tem de ser discutido no âmbito das famílias. Um homem exposto ao desemprego pode ficar, por exemplo, mais vulnerável ao alcoolismo, às drogas e à depressão. O Estado precisa dar suporte a uma pessoa nessas condições, para que seja capaz de encarar tais complicações”, salienta.

O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, concorda que a violência deve ser encarada como uma questão de saúde pública. “Atualmente, Bauru tem feito um trabalho importante com o Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência), no sentido de tentar minimizar os efeitos de acidentes e traumas. Quanto mais rápido conseguirmos socorrer as pessoas envolvidas nessas ocorrências, maiores serão suas chances de sobrevivência”, explica.

Sobre a prevenção às causas do problema, Monti afirma que os agentes do Programa Saúde da Família (PSF) são treinados para detectar sinais de violência doméstica, bem como sintomas de alcoolismo ou de uso de drogas ilícitas.

Atualmente, Bauru conta com sete equipes do PSF. Monti pretende aumentar esse número para dez, no começo do ano que vem. Em dezembro de 2010, a intenção dele é ampliar essa quantidade para 20.

O secretário diz também que pretende dar atenção especial ao Centro de Atenção Psicossocial aos Usuários de Álcool e Drogas (Caps-AD). “Esse serviço é essencial para o município e precisa ser incrementado dentro dos próximos anos”, afirma.

Comentários

Comentários