Tribuna do Leitor

As orquídeas e a saudade dele


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8 de dezembro de 1950... Conheci um rapaz que me encantou por sua sensibilidade e fineza e aos poucos descobri a sua admiração pelas flores, principalmente as orquídeas. Anos depois nos casamos na Igreja Nossa Senhora Aparecida e fomos morar numa cidadezinha da Alta Sorocabana. Ele trabalhava na área da saúde e eu na da educação.

Morávamos numa casa com um grande quintal. Ali era o seu pequenino céu, onde plantava frutas, criava galinhas e onde começou a cultivar suas amadas orquídeas, que aos poucos inundavam nossa casa e quintal, inebriantes de beleza e perfume. Compradas por catálogos ou em exposições, vinham de cidades do RJ, SP, SC e até do exterior, como atraídas por algum misterioso ímã floral. Uma verdadeira “convenção” de orquídeas.

“O orquideário do doutor Evandro” – assim tornou-se conhecida a extensa pérgula que abrigava as suas orquídeas, ao redor de uma frondosa mangueira. Meu marido chegava à noite, exausto da lida hospitalar mas ansioso pela companhia delas, e lá ia ele para o quintal, de farolete em punho para analisá-las. Ali transformava-se no doutor das plantas: alimentava-as com água e adubos, livrava-as das pragas, curava-as, podava-as, endireitava-lhes a “postura”, auxiliava alguma flor a nascer, coisas que já nem me lembro. Entendia a muda linguagem das plantas, e emocionava-se com cada “evento” que ocorria naquela vasta comunidade vegetal, principalmente os “nascimentos” – as flores mais raras, ele as exibia como fossem jóias. Chamava-nos para ver uma flor nascendo, uma planta se defendendo ou realizando seus planos inteligentes... Deslumbrava-se com as plantas. Muitas vezes nos tirou da cama para ver o esplendor de uma certa flor que desabrocha à meia noite e dura apenas horas (flor de cactus? dama da noite? falha-me a memória).

Cada orquídea que chegava era alegremente saudada pela família, e numa plaquetinha recebia o nome (científico) e a data do “nascimento”; a partir daí a planta apoderava-se de seu coração. Não importava a hora, ele frequentemente estava com ela. Aliás, com elas: vanda, laelia, miltônia, oncidium, catléya, cimbidium e muitas outras. Ele as amava devotadamente. Dizem que a orquídea é a rival da mulher – bem-vinda porém até pelas esposas. Não há como não ser-lhes grata...

Nossa casa era um mosaico de flores, a primavera morava ali e éramos felizes em meio à nossa primavera. E eu cantarolava: “Felicidade é uma casinha pequenina, com orquídeas em flor nas janelas...” As orquídeas recebiam visitas, abrilhantaram jantares rotarianos, receberam troféus em exposições e certa feita fizemos uma exposição com elas para angariar fundos para a luta contra o câncer, causa que abracei com muita dedicação e esforço. Quando lembro disso tudo, penso que uma chuva de orquídeas celestes despencou do Éden sobre a nossa casa, e através das amorosas mãos do meu marido estas flores puderam descortinar seu divino espetáculo de beleza, cor, perfume e sublimidade pelos lugares onde ele as levou. Elas nos remetiam ao Paraíso, à beleza e à sabedoria do Criador. Meu marido, emocionado, filosofava: “Diga-me se isto não prova que há um Ser Superior, um Divino Arquiteto do Universo que realiza tão magníficas obras, que rege a Natureza com tamanha perfeição!” Lembro vivamente da ternura em seu olhar...

Em 1977, porém, o frio bateu em nossa porta e em nossas vidas. Meu marido adquiriu uma cardiopatia, e o trabalho cotidiano tornou-se-lhe penoso. Pouco depois uma forte geada tirou a vida de cerca de 300 plantas do orquidário. Meu marido recolhia pesaroso os vasos com as orquídeas secas, queimadas, mortas, despedindo-se de cada uma delas. O mosaico de flores perdia peças, a nossa eterna primavera despedia-se.

Viemos para Bauru trazendo parte de suas orquídeas. Ele continuou dedicando-se a elas com todo carinho - mas elas aos poucos iam morrendo. Com o tempo meu marido aposentou-se, e seu estado de saúde foi piorando. Simultaneamente findavam-se as orquídeas, para sua tristeza. Quando ele partiu, contava-se nos dedos as que por pouco tempo ainda ficaram vivas. Elas se foram com ele. Misteriosamente haviam resistido pelo mesmo tempo que ele, e certamente ascenderam com ele ao seu Éden de origem.

Hoje, quando qualquer de nós entra em alguma ocasional exposição de orquídeas, parece-nos ver meu marido percorrendo os corredores da exposição, alegre, vibrante, examinando as orquídeas uma a uma, e ao final do corredor fazer meia volta e dizer: “É tão lindo, vamos ver de novo!” “Outra vez?”, dizíamos, cansados. Mas ele nunca se cansava de admirá-las.

Ele as via com olhos de profundo amor, de profunda sensibilidade, assim como nós agora as vemos com olhos de profunda saudade, uma saudade tão doce quanto cortante. Olhos de boneca, chuva de ouro - quantas lembranças abrigas em suas pétalas... És bela, orquídea, e és alegre e triste ao mesmo tempo, porque és saudade. Eu não sei se és flor em forma de saudade, ou se és saudade em forma de flor.

Salua Mauad Câmera

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