Não bastasse termos que ouvir as mentiras da propaganda dos partidos políticos, que vive interrompendo os programas de televisão, toda vez que acontece um fato desagradável, envolvendo a responsabilidade do governo, temos que ficar ouvindo tolices, umas depois das outras. Foi o que aconteceu com o apagão. Foram tantas as tolices sobre as causas do apagão que até a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um requerimento do senador Artur Virgílio, convidando a fundação “Cacique Cobra Coral”, especializada em previsões climáticas, para ajudar a esclarecer através de sua vidência.
Colocando o interesse político na frente dos interesses nacionais, a atitude do governo foi de procurar diminuir os efeitos negativos para os seus candidatos às próximas eleições. Não podendo esconder o fato, procuraram minimizá-lo, como o ministro Tarso Genro, que disse que o apagão foi um micro-acidente, ou o Lobão, que foi um blecaute, como se mudando o nome o fato se tornaria menos grave. Mas as maiores besteiras vieram com a pressa de dizer que a causa estava esclarecida. Foram raios simultâneos na subestação de Itaberá. Aí vem um técnico do Inpe e diz que os raios foram poucos e distantes naquela região. Um morador do local afirmou que não viu raio nenhum. Outro técnico disse que o raio não tem intensidade suficiente para desarmar a rede. Então foi o tempo muito chuvoso, que diminuiu a capacidade de isolamento. Só faltou dizer que a chuva derreteu os isoladores de cerâmica.
Para estancar as tolices do ministro Lobão e as próprias, a ministra Dilma, com toda a sua ‘autoridade’, deu o caso por encerrado. O presidente, que já havia aceito a explicação, voltou atrás, dizendo que só falaria sobre o assunto quando os técnicos descobrissem a causa verdadeira. Mas era isso que deveria ser feito desde o início. O fato é de natureza técnica, então, deixa que os técnicos investiguem as causas e proponham as medidas para que não se repita. O mais importante não é se vai prejudicar os candidatos do governo ás próximas eleições, mas que isso não aconteça de novo,
Todos os empreendimentos estão sujeitos a falhas, mesmo contando com a participação de pessoas inteligentes e capacitadas. Karl Albrecht, renomado consultor e conferencista americano, no livro “O Poder das Mentes em Ação”, relata o caso da espaçonave climática Mars, da NASA, que custou US$ l25 milhões e foi perdida porque se aproximou de Marte mais do que devia. Uma investigação minuciosa chegou à conclusão que houve um erro de cálculo no planejamento, apesar dos engenheiros e cientistas envolvidos estarem entre os melhores do mundo. Aconteceu que trabalharam em dois grupos separados, e enquanto um fez os cálculos do software pelo sistema métrico decimal, o outro fez pelo sistema inglês e não confrontaram os resultados. A diferença entre quilômetro e milha permitiu que a nave invadisse a atmosfera de Marte e se queimasse.
Fato semelhante ocorreu aqui no Brasil em 2003, no Centro de Lançamento de Foguetes de Alcântara, no Maranhão. Quando o VLS-1 (veículo lançador de satélites), construído com muito sacrifício e escassez de recursos, estava pronto para ser disparado, a ignição prematura de um dos propulsores do primeiro estágio destruiu a base e matou 21 técnicos, entre os melhores que possuíamos. A causa foi a substituição de um dispositivo de segurança mecânico por outro, eletrônico. A inteligência e preparo técnico, nesses dois casos, não impediu que eles acontecessem. Com base em fatos como esses, estudados durante sua carreira de consultor, Karl Albrecht formulou o que chamou de Lei de Albrecht: “Pessoas inteligentes, juntas em uma organização, tendem a resvalar para a estupidez coletiva.” Se isso acontece com equipes altamente competentes, imagine o que pode acontecer quando o governo mistura cientistas e técnicos, como os há dos melhores no setor elétrico, com os políticos sem nenhum conhecimento do setor, como o ministro Lobão, ocupando os cargos mais importantes. Só pode dar em situações desastradas como a do apagão.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras