Articulistas

A legendária maestrina

Alfredo Enéias Gonçalves d’Abril
| Tempo de leitura: 3 min

No final da década de 45 e em toda década de 50, esteve no planejamento do “Colégio Guedes de Azevedo”, que no seu primeiro estágio funcionou num prédio localizado na quadra 17 da rua Antonio Alves, demolido há anos para ceder espaço a um shopping cuja construção entrou em estado letárgico na prancheta de projetos, a formação de um grupo musical composto por quase cem alunos daquela escola. O plano avançou, o grupo foi dividido em quatro vozes e entregue à direção da jovem e garbosa professora de música, maestrina e pianista Terezinha Bortone Correa. Era o orfeão “Guedes de Azevedo” ensaiado com esmero durante os meses do ano letivo para se apresentar ao público no dia 22 de novembro de cada ano, data de Santa Cecília, tida por padroeira da música.

Na data da apresentação, os cantores e a maestrina expunham-se trajados a rigor, os homens com ternos e gravatas escuros e as mulheres de vestidos longos apropriados para o evento. A regente ostentava uma elegância de chamar a atenção da plateia. E de seus precisos movimentos na regência do coral saíam a energia de uma jovem maestrina agraciada com muito talento musical e de uma presença cativante. A maestrina, representando a graça de uma morena bem brasileira, organizava à sua frente a simetria de dezenas de vozes. Conquistava com seus pupilos o grande público que lotava o cinema improvisado em teatro exclusivamente para a exibição do espetáculo. As músicas da época eram entoadas perante silêncio absoluto da plateia aprisionada ao som maravilhoso e harmônico das vozes. Naquela época não havia televisão. Só rádio. O entretenimento das famílias era pouco, reduzido, quase nenhum, exceto as sessões de cinema, os bailes dos sábados e a retreta dominical a cargo da banda de música da Força Pública no coreto da Praça Rui Barbosa. O orfeão “Guedes de Azevedo” somava-se a esses acontecimentos como uma atração na agenda social da cidade. O dia 22 de novembro era aguardado ansiosamente por um enorme e selecionado público, admirador de música daquele estilo.

No entanto, como nada é para sempre, tudo aquilo virou história da cidade. Marca do passado. O orfeão foi extinto, o colégio “Guedes de Azevedo” caminhou vagarosamente cadenciado no rumo do mesmo destino, todavia, anos depois, entre as cinzas sobejou a ideia dos que saíram dos salvados de se reunirem anualmente em um restaurante, no mês de novembro, para comemorar o aniversário de nascimento da maestrina e ao mesmo tempo, o dia de Santa Cecília. A ideia vingou, ganhou força e velocidade e, há 12 anos, inaugurando um novo estágio na vida dos remanescentes do orfeão “Guedes de Azevedo” passou-se a realizar em restaurantes da cidade, reencontros entre ex-alunos, maestrina e membros da nova geração da família Guedes de Azevedo. Na abertura da reunião, todos cantam sob a regência da maestrina, Ave Maria, do compositor Gounod, clássico da música erudita e uma das melodias do repertório do orfeão, haurida com semblantes admirados e atentos dos frequentadores do restaurante onde a tertúlia é comemorada.

A reunião deste ano ocorreu na noite de 19 último, com 64 pessoas assinalando presença, número expressivo a considerar o peso das dificuldades naturais que açoitam as pessoas idosas. As três ex-alunas responsáveis pelo êxito do evento, Maria Teresa, Eli e Neli Mattos, desejam, doravante, mesclar com os ex-alunos da maestrina outras pessoas mais jovens que a têm na admiração, no escopo de oxigenar o grupo e mantê-lo vivo, e, se não for demasiada pretensão, desafiar o tempo. O encontro com a maestrina virou a página de um século e está 10 anos dentro de outro e, uma vez solidificado o grupo com as pessoas mais jovens, o plano é eternizar a façanha pensando que um dia qualquer, ao surgir o fato do qual ninguém dele se esquiva, o encontro venha ser instrumento de culto a uma memória.

O autor, Alfredo Enéias Gonçalves d’Abril, é professor universitário aposentado e ex-integrante do orfeão “Guedes de Azevedo”

Comentários

Comentários