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Bom final e ótimo começo

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A melhor notícia que estamos recebendo neste final de 2009 é a redução do desemprego. Num ano de crise mundial em que fábricas fecharam e postos de trabalho foram suprimidos na maioria dos países industrializados (sem poupar os emergentes), o Brasil fez a diferença. Tivemos uma recuperação formidável, reagindo ao choque de setembro de 2008, quando as finanças mundiais entraram em colapso e empurraram a economia real para a recessão nos meses seguintes.

No Brasil, o acerto das políticas do governo reduziu o período recessivo ao estimular a produção e facilitar o crédito para o consumo. Hoje, o emprego retornou praticamente aos níveis em que se encontrava antes da crise. Este é o fator decisivo, porque na medida em que se mantém o ritmo do emprego, mantém-se o salário real que sustenta a demanda privada interna e ajuda a manter o nível de renda.

Diante da tempestade que varreu os mercados de trabalho e impediu o crescimento da economia mundial, nossa performance foi realmente muito boa. O Brasil vai terminar o ano com um PIB ligeiramente positivo em relação a 2008 (que foi de grande crescimento) e, mais importante, com uma expansão “já contratada” de 5% para 2010. Adquirimos musculatura inclusive para um crescimento maior e mais estável neste e nos anos seguintes: iniciamos 2010 com a inflação controlada, nossas reservas externas alcançaram um nível de bastante conforto (US$ 239.5 bilhões em 1 de dezembro último) e temos uma política fiscal e uma política monetária razoáveis.

Se compararmos o que aconteceu no Brasil com o resto do mundo desde o início do enfrentamento da crise vamos ver que fomos muito mais virtuosos e por isso estamos preparados para um novo ano muito bom, com um crescimento do PIB de 5% a 6%. O problema agora é saber como vamos operar o futuro, quando o governo vai ter que reduzir a sua demanda para permitir que a demanda privada volte ao papel que cumpria anteriormente.

Com a mudança esta semana dos parâmetros do Orçamento de 2010, tivemos a demonstração que o governo tem uma idéia muito clara do que precisa ser feito para que se consolidem os benefícios da ação fiscal desenvolvida em 2009. Depende de transmitir à sociedade que a relação dívida/PIB vai continuar sob controle e que sejamos capazes de manter um câmbio em níveis razoáveis para impedir a destruição do setor industrial exportador que já está se processando.

Também nesse aspecto o governo revela que tem consciência do problema, ao fazer a intervenção no mercado muito criticada no início, mas que agora o mundo todo reconhece que foi correta. A defesa da idéia que, deixado a si mesmo, o mercado de câmbio, quando há liberdade de movimento de capitais, produz a taxa de câmbio de equilíbrio é, na realidade, uma manifestação incrível de miopia, tanto na prática quanto no campo da teoria.

Com essa expectativa acredito que 2010 será um ano de crescimento bastante robusto da economia brasileira, com um forte crescimento dos níveis do emprego, uma reação favorável da produção e da renda da agropecuária e finalmente com o retorno à expansão firme da produção industrial, e recuperação da indústria exportadora.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP - ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br)

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