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Entrevista da Semana: Maria Cherubina Cirne

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Mulher de fibra, vaidosa, opinativa e por que não dizer ousada em certos assuntos? Aos 68 anos, essas são as primeiras características que Maria Cherubina Cirne deixa escapar para quem a conhece pela primeira vez.

Nascida e criada em São Paulo, ela veio a Bauru com os pais no início da década de 60 para tentarem a vida no comércio local com a padaria Good Bread. Os pais não se acostumaram com a vida do Interior e voltaram à Capital.

Ela, como em um filme romântico, encontrou um amor bauruense que conhecera certa vez em São Paulo. Mauro Moreira foi esse amor com o qual ela se casou e viveu até ficar viúva. Mãe de dois filhos, ela tem três netos que completam e alegram seus dias. Viagens, leitura, música, cinema e artes plásticas são outras paixões.

Sempre ativa e opinativa, dona Cherubina não perde a chance de expressar o que pensa e o que sente. “Sempre ensino que devemos exigir respeito do poder público. Cobro dos políticos e sempre estou de olho. Voto. E pretendo continuar votando enquanto estiver viva”, diz a respeito da política.

Confira os principais trechos da entrevista onde Maria Cherubina Cirne também fala sobre a condição da mulher atual, família, planos, carreira e Bauru.

Jornal da Cidade – Quando a senhora se tornou uma “bauruense”?

Maria Cherubina Cirne – Nasci em São Paulo e me mudei para Bauru em 1960. Meus pais vieram com o intuito de montar um negócio que, na época, era o que existia de mais moderno em panificadora. O nome da nossa padaria era Good Bread e ficava na Rodrigues Alves, esquina com a Rio Branco. Nosso estabelecimento revolucionou o conceito de panificadora porque o prédio era cheio de vidros, os doces diferentes. O que mais chamou a atenção dos bauruenses foram os croassants que, na época, não eram populares na cidade. Meu pai tinha um confeiteiro chileno que fazia os salgados. Os croassants ganharam o nome de camarão devido ao seu formato. Meu pai era um homem muito interessante e fizemos da padaria um sucesso. Eu e minha irmã éramos muito bonitas e os rapazes iam comprar pão à noitinha para conversar conosco. Até que, em 1963, meus pais resolveram voltar para São Paulo porque as finanças do País não estavam boas e minha mãe não se acostumava com a vida no Interior. Eu fiquei porque já estava casada.

JC – A senhora chegou aqui em 1960 e já encontrou o amor?

Cherubina – Na verdade, eu já conhecia meu falecido marido quando vim para Bauru. Conheci o Mauro em São Paulo no casamento de uma amiga de ginásio. Ele era amigo do pai da moça. Foi amor à primeira vista. Ele me olhou e disse: “É com ela que vou me casar”. Passamos a nos corresponder por cartas. Era um namoro como os de antigamente. Depois, por coincidência, meus pais resolveram vir para cá. Eles nem sabiam do romance. Foi uma coisa interessante, não sei se há destino ou não, mas foi o que aconteceu. Ele era quase 13 anos mais velho que eu e vivemos muito felizes.

JC – Sua família sempre esteve ligada aos negócios?

Cherubina – Sempre fomos muito empreendedores. Em 1988, montamos, na Primeiro de Agosto, o primeiro restaurante de comida por quilo da cidade. Demos o nome de Max Salada e também foi um sucesso. Depois, montamos uma fábrica de sorvetes Colorê no Bauru Shopping. Assim, sempre procuramos inovar. Durante todo esse tempo eu sempre estive dando força à família. Mas, como profissão, escolhi ser advogada.

JC – Por que a escolha do Direito como profissão?

Cherubina – Sou formada pela Universidade Católica de Santos. Já casada, morei no litoral paulista. Sempre quis seguir essa profissão e trabalhei durante muito tempo com direito comercial. Casei-me muito cedo. Tinha apenas 19 anos. Assim, não deu tempo de fazer faculdade antes e, na primeira oportunidade, fui estudar. Naquela época, as mulheres se casavam muito novas.

JC – Hoje, as coisas estão melhor para as mulheres?

Cherubina – Ah, sem dúvida nenhuma as coisas estão melhores, e em todos os aspectos. Primeiro porque você pode expor suas vontades, seus pontos de vista, sua carreira. Hoje, a mulher pode escolher a profissão sem ter que lutar ou brigar pelo espaço. Podemos prestar um concurso nas mesmas condições que os homens. Antes, não podíamos entrar na carreira judiciária. As mulheres podiam até fazer a prova, mas nos davam zero para não passarmos. Já na questão amorosa, não tínhamos liberdade para namorar, viajar com os namorados...Tudo era feito com a supervisão dos pais. Tínhamos horário para voltar para casa e os bailes terminavam cedo. Havia, também, uma certa repressão familiar em relação à profissão escolhida pelas filhas.

JC – Fale sobre sua infância e juventude?

Cherubina – Foram maravilhosas e felizes! Viajei muito de navio, a família sempre foi unida, meus pais eram muito cultos e me passaram essa cultura. Estudei piano e toco todos os dias para me distrair.

JC – O que mais a senhora faz para se divertir?

Cherubina – Leio jornal, diariamente, e isso é uma paixão. Além do piano, vou bastante ao cinema, escuto boas músicas, viajo muito, leio livros, ajudo a tomar conta dos meus negócios e me divirto com meus três netos: Bárbara, Henrique e João Alfredo. De todas as coisas que faço, a melhor é curtir meus netos. Ah, tem outra coisa: fiz um curso de artes plásticas e já ganhei prêmios com minhas pinturas. Fiz exposições na cidade e em São Paulo. Estou parada há um ano, mas pretendo voltar a pintar.

JC – É uma vovó moderninha?

Cherubina – Acredito que sim. Vamos ao cinema, viajo com eles para São Paulo, para a praia...Para mim, ser avó é ter toda a ternura do mundo ao meu lado. Sou aquela avó boba que pula na cama com os netos e diz que os ama.

JC – A senhora viaja bastante. O que mais a encanta nesses passeios?

Cherubina – A parte cultural. Conhecer coisas novas é fascinante. Outro dia, fui a Brasília e vi um projeto muito interessante. A essência dele é incentivar pessoas que têm livros ou revistas, e que não usem mais, a deixá-los em pontos de ônibus da cidade. Assim, quem passar por esses lugares terá contato com a leitura. Achei essa iniciativa muito boa e quero colocá-la em prática em Bauru.

JC – Qual é o seu segredo para viver bem?

Cherubina – Procuro ser fiel aos meus ideais, pontos de vista e não tenho medo da verdade. Meu ideal é ter um família unida e com saúde. Para o Brasil, gostaria de ter um país justo, democrático e com um governo não corrupto. Por isso, faço a minha parte.

JC – Quem é Maria Cherubina?

Cherubina – Sou uma pessoa que cobra. Cobro respeito como cidadã para mim e para as pessoas que me cercam. Sempre ensino que devemos exigir respeito do poder público. Cobro dos políticos e sempre estou de olho. Voto. E pretendo continuar votando enquanto estiver viva. É a maior conquista da democracia. Lutei como advogada nas campanhas “Diretas Já” e sempre fui engajada na política. Agora, discordo de algumas posições atuais como a proteção à mulher, por exemplo. Uma campanha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) dizia: “Maior proteção à mulher advogada”. Dá a impressão de que os homens ainda estão “mandando” na profissão. A mulher já conquistou seu espaço em todas as profissões. Somos capazes! E, hoje, temos condições de brigar sozinhas, não precisamos desse tipo de proteção.

JC – Como a senhora vê Bauru?

Cherubina – Interior é bom porque as pessoas se conhecem e podem dar mais atenção umas às outras. Temos credibilidade. Por exemplo: você esquece a carteira e pode dizer que paga amanhã porque as pessoas te conhecem, claro que isso não acontece com todo mundo, mas temos um certo amparo nesse sentido. Temos contato com os vizinhos. Outra coisa é a solidariedade que, no interior, ainda é bastante visível. Por outro lado, acho que as pessoas não são muito sinceras em seus pontos de vista. É um tal de “todo mundo querer fazer média com todo mundo”, por medo de se indispor com o grupo ao qual pertence. Já em São Paulo, percebo que as pessoas são mais autênticas e menos comedidas. Um exemplo disso são as festas sociais. Minhas amigas paulistanas estranham o fato de, aqui, ainda haver divisão entre homens e mulheres em eventos como casamentos, entre outros. Acho uma vergonha homens ficarem de um lado e mulheres de outro.

JC – Acredita ter feito uma boa troca quando se mudou de São Paulo para Bauru?

Cherubina – Ah, eu acho. Mas também estou sempre em São Paulo. Estou aqui e estou lá.

JC – A senhora disse que nunca fez cirurgias plásticas...

Cherubina – Nem vou fazer. Porém, não sou contra esse tipo de procedimento. Acho que mulheres que tentam correr contra o tempo não vão parar nunca. Eu não faria porque tenho coisas mais importantes e maravilhosas para curtir e aproveitar. Família, viagens, música, amigos...Vivo em função dessas alegrias.

JC – Quais são seus planos atuais?

Cherubina – Quero ver meus netos crescerem e se formarem, isso é fundamental. Quanto a mim, pretendo ainda realizar um empreendimento comercial.

JC – É uma mulher realizada?

Cherubina – Muito. Eu tive boas coisas na vida e procuro fazer outros boas coisas. Passei por altos e baixos, como todo mundo, mas foram superados sem traumas. Por tudo que passei, sou realizada totalmente.

JC – O que é fundamental?

Cherubina – Saúde e perfume (risos).

JC – E desnecessário?

Cherubina – Colocar a vida em risco para ficar mais bonita.

JC – É consumista?

Cherubina – Não. Mas gosto de comprar coisas boas. Você gosta de perfumes?

JC – Sim.

Cherubina – Mas eu amo! É o que mais gosto de comprar e usar. Estou sempre perfumada (risos).

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Perfil

Nome: Maria Cherubina Cirne

Idade: 68 anos

Local de Nascimento: São Paulo

Signo: Capricórnio

Marido: Mauro Moreira (já falecido)

Filhos: Eduardo e Alfredo

Hobby: Viajar e ler jornais

Livro de cabeceira: Não tenho um específico. É o que estiver lendo no momento

Filme preferido: Todos os gêneros, exceto os nacionais

Estilo musical predileto: Música clássica – ópera

Time: Não

Para quem dá nota 10: Aos meus pais pelo legado cultural e a meu sogro pelo legado da força do trabalho

Para quem dá nota 0: Aos falsos

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