Pressões por resultados dentro das empresas, acentuadas mudanças tecnológicas, a globalização da economia, o medo do desemprego, a necessidade constante de autodesenvolvimento, são algumas das condições que permeiam o mundo do trabalho contemporâneo e que são experienciadas por inúmeros trabalhadores de diferentes setores e segmentos. Essas condições, aliadas a outras relacionadas à organização atual do trabalho, caracterizam-se como situação de risco à saúde física e mental do trabalhador, influenciando seu desempenho no trabalho. Inúmeras são as pesquisas correlacionando saúde e qualidade de vida do trabalhador com as condições objetivas dos contextos de trabalho. Entre as condições atuais da relação homem - trabalho que pode caracterizar-se enquanto fator de risco à saúde e bem-estar do trabalhador, destaco uma especificamente: a dificuldade do indivíduo em conciliar as exigências do trabalho com as exigências familiares. Essa questão configura-se enquanto um desafio acentuado para os gestores organizacionais, principalmente aqueles responsáveis pelas políticas de gestão de pessoas. Vários estudos revelam que as interferências do trabalho na família traz inúmeras consequências negativas para os indivíduos, para as organizações e para as famílias.
Um dos principais fatores que têm influenciado negativamente essa conciliação é o excesso de trabalho, ou seja, quando trabalhamos muito e por extensos espaços de tempo, deixamos de ter tempo para a família, tornando difícil o cumprimento do papel familiar. Tornam-se cada vez mais comuns situações onde se acentua as dificuldades de conciliação entre o trabalho e a vida pessoal, redundando quase sempre em prejuízos na esfera familiar. Esses prejuízos vão desde o aparecimento de doenças diversas nos envolvidos, até desgastes acentuados nas relações afetivas e interpessoais, como a relação pais e filhos, por exemplo. Aos gestores das organizações, cabe reconhecer que dificuldades na vida familiar enfrentadas pelos trabalhadores interferem em seu desempenho profissional, influenciando na sua produtividade e nos resultados do trabalho. Esses trabalhadores, quando apresentam problemas de desempenho, sofrem pressões no trabalho, acentuando seu nível de ansiedade, o que vai refletir negativamente nas suas relações familiares. Fecha-se assim um ciclo perverso e desumano, impactando negativamente em todos os envolvidos, ou seja, trabalhadores e organizações – e assim, todos saem perdendo.
Estranhamente (ou ingenuamente) muitos gestores organizacionais consideram que o trabalhador mais envolvido e com maior capacidade é aquele que não tem limite de horas para trabalhar, trabalha fora de seu horário e até em finais de semana, ou mesmo leva trabalho para casa - sendo esse o modelo de “trabalhador ideal”. Outro equívoco cometido pelas empresas é pressupor que, quanto mais horas de trabalho forem realizadas, maior será a eficácia do trabalhador. Sério engano! Claro que é necessário que as empresas e seus gestores encontrem práticas de gestão que promovam o envolvimento e comprometimento do trabalhador, facilitando o atingimento de metas e objetivos, entretanto isso não deve implicar em excessiva carga horária no trabalho. Na maioria das vezes, tais excessos indicam falhas de planejamento e de gestão organizacional. Quanto à atuação dos gestores responsáveis pelas organizações, faz-se importante também garantir, em suas ações, que os valores humanos não sejam relegados em detrimento aos valores econômicos, e que haja a preocupação eminente com a manutenção da saúde e bem-estar de toda comunidade organizacional. O avanço das doenças ocupacionais, principalmente os transtornos mentais, deve configurar-se, atualmente, como a principal preocupação das organizações e dos profissionais que atuam em gestão de pessoas. Os profissionais “de RH”, devem atuar estrategicamente e em equipe multiprofissional, reconhecendo e intervindo em situações do contexto de trabalho que favoreçam o adoecimento do trabalhador, garantindo assim um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo. Nesse sentido, a conciliação entre as exigências do trabalho e as exigências familiares deve merecer a devida atenção, tanto para obtenção de resultados organizacionais mais favoráveis como para a manutenção da saúde e bem-estar da comunidade inserida nas organizações.
As demandas atuais dos contextos de trabalho requerem ações planejadas e alinhadas aos interesses organizacionais, individuais e sociais, e para as quais esses profissionais – os que atuam em ”RH” - precisam estar atentos e preparados. As práticas desse setor, que chamamos usualmente de “RH”, são as mais suscetíveis a “modismos da época”, demonstrando – com algumas exceções – certa mesmice na atuação dentro dos contextos de trabalho. Assim sendo, encontramos campos inexplorados nas organizações no que se refere as práticas de gestão de pessoas, nas quais normalmente o que se vê são ações mais tradicionais e conservadoras, resumindo-se quase que exclusivamente no tripé selecionar-treinar-avaliar. Não que essas questões não sejam importantes, mas queremos chamar a atenção para o seguinte: se objetivamos ambientes de trabalhos mais favoráveis à produtividade e qualidade desejadas com qualidade de vida e saúde e bem-estar do trabalhador, temos que ir para além disso.
Todas as pequisas no mundo todo, apontam para o avanço significativo das doenças ocupacionais – principalmente os transtornos mentais no trabalho. Sendo assim, é urgente que os profissionais de “RH” estejam preparados para atuarem sobre essa demanda que infelizmente se apresenta.
O autor, Edward Goulart Junior, é doutor em psicologia, especialista na área da Psicologia Organizacional e do Trabalho - docente do Departamento de Psicologia - Unesp-Bauru