Pacientes que dependem do setor de radioterapia do Hospital Amaral Carvalho (HAC), em Jaú (47 quilômetros de Bauru), estão sendo obrigados a enfrentar filas intermináveis para conseguir atendimento. Em dias normais, os atrasos costumam ser de duas horas. Nas quintas-feiras, a espera ultrapassa cinco horas. Há casos de pessoas que precisam aguardar até a madrugada para receber tratamento.
A diretoria da instituição admite a existência do problema. “O setor de radioterapia está, sim, sobrecarregado. Estamos trabalhando 24 horas por dia, com 100% de nossa capacidade”, afirma o médico Batista de Oliveira Júnior, responsável pelo setor de radioterapia do HAC.
Segundo ele, o serviço já enfrentava um nível grande de sobrecarga, quando o Departamento Regional de Saúde VI (DRS-VI) solicitou à instituição que recebesse 40 pacientes de Bauru. Essas pessoas não dispunham de outra opção de tratamento, depois que o setor de radioterapia do Hospital Manoel de Abreu, atualmente administrado pela Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), foi desativado, em junho deste ano.
Na época, detectou-se que a ampola de cobalto, responsável por emitir a radiação necessária para combater os tumores, estava com atividade muito baixa e precisaria ser trocada. Como se tratava de uma material tóxico, a Vigilância Sanitária do Estado determinou que o aparelho fosse temporariamente desativado, como forma de garantir a segurança dos pacientes e funcionários do Manoel de Abreu.
Fabricados nos Estados Unidos, os equipamentos de radioterapia, bem como suas peças, precisam passar por uma série de vistorias antes de entrar em funcionamento. A ampola bauruense, que pertence à empresa terceirizada Quantum Assessoria em Física Médica Ltda., aguarda aval da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnem) para ser colocada em atividade.
A peça já se encontra em solo bauruense desde o mês passado, mas, como o parecer do Cnem ainda não saiu, a radioterapia só deverá voltar a funcionar na cidade a partir do ano que vem. Pacientes que dependem do serviço têm sido obrigados a viajar quase que diariamente a Jaú para se tratar.
A administradora de empresas (atualmente desempregada) Ellen Martins, 37 anos, conhece bem essa realidade. Além de dolorosa, a via-crúcis que ela enfrenta para sobreviver é bastante dispendiosa. Em média, ela gasta R$ 60,00 ao dia com combustível, pedágio (na ida e na volta) e alimentação (dela e do marido).
Ellen descobriu que tinha câncer de mama em junho deste ano. No final de outubro, ela se submeteu a cirurgia para retirada do tumor. Em seguida, passou por seis sessões de quimioterapia. O tratamento tem sido financiado, em sua maior parte, por um plano de saúde.
A seqüência lógica de seu processo de recuperação seria passar por sessões diárias de radioterapia, durante certo tempo. “Como o serviço não estava disponível em Bauru, resolvi aguardar algumas semanas, até que o aparelho voltasse a funcionar. Mas, com toda essa demora para autorizar a ampola de cobalto, meu médico achou melhor que eu buscasse tratamento no Amaral Carvalho, em Jaú”, conta.
Há quem pense, ainda hoje, que o fato de alguém possuir um convênio particular de saúde pode significar um privilégio - um chave mágica que dá acesso ao que há de melhor em matéria de medicina. Talvez Ellen seja um caso à parte. Sempre que vai a Jaú para se tratar, ela precisa passar horas na fila, esperando para ser atendida.
“Eles pedem para que as pessoas que usarão o convênio cheguem às 14h ao hospital, pois é quando começa o atendimento. Como dependo de meu marido para viajar, só consigo estar lá às 16h. Mesmo assim, tenho de esperar um bom tempo, antes de ser chamada”, diz.
Anteontem, Ellen e os demais pacientes tiveram sua paciência testada mais uma vez. Como de costume, ela chegou ao hospital por volta das 16h e permaneceu aguardando. Conseguiu ser atendida apenas às 2h50. Ela e o marido saíram do Amaral Carvalho às 3h30. No dia seguinte, ele teria de entrar no trabalho às 7h.
“Quando minha sessão terminou, várias pessoas ainda esperavam para ser chamadas. Lembro-me de uma criança, deitada no colo da mãe, aguardando sua vez de ir para a sala de radioterapia”, afirma. Segundo ela, os funcionários e médicos do HAC são atenciosos e se esforçam ao máximo para oferecer um atendimento digno aos pacientes.
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Dose maior
Nas quintas-feiras, a bauruense Ellen Martins, 37 anos, que se submete a tratamento contra o câncer no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, costuma receber uma dose maior de radioterapia, para o compensar o fato de ela permanecer em repouso na sexta-feira, no sábado e no domingo.
Ela confessou à reportagem que esse procedimento a deixa bastante preocupada. “Não sei até que ponto isso pode vir a prejudicar minha saúde, com o passar do tempo”, questiona.
O HAC afirma que, nas sextas-feiras, os pacientes da Casa de Apoio têm prioridade no tratamento, sobretudo nos períodos da tarde e da manhã, uma vez que são procedentes de locais distantes e precisam ser liberados mais cedo para que possam retornar para a casa com segurança.
Sobre a dúvida colocada por Ellen, em relação à dose maior de radiação usada em seu tratamento nas quintas-feiras, o hospital afirma que o procedimento não oferece riscos à saúde dos pacientes.