Pergunta - E a senhora acredita que será uma disputa tensa, complicada...
Dilma - Claro, ninguém ganha eleição de véspera. Nem nós, nem eles. A primeira coisa que você tem numa eleição é respeitar o povo e respeitar que quem decide é ele. Ninguém decide por ele e ninguém decide antes dele. E esta é uma satisfação que temos que dar a ele. Não podemos chegar na eleição e dizer: ‘o meu recall basta’. Não tem isso.
Pergunta - Esta será uma eleição mais racional que emocional?
Dilma - O eleitor age com a razão e com emoção. Age dos dois jeitos. Nós temos já mais de 20 anos de democracia. Você lembra como tinha algumas coisas de surpresa na eleição? A pesquisa era uma coisa na véspera, no dia mudava totalmente... Acho que várias coisas foram superadas no Brasil, aquelas armadilhas...
Pergunta - A senhora confia nas pesquisas eleitorais feitas no atual momento?
Dilma - Acho que ninguém deixa de considerar as pesquisas, do jeito que elas são. Pesquisa, só. É uma confiança, um indicador. Antes, o que se tentava passar para a população? De que a pesquisa era o que ia acontecer, era uma espécie de adivinhação do que ia ser. Ninguém hoje, do brasileiro mais humilde ao mais letrado, ninguém cai nesta. É um retrato do momento.
Pergunta - Mas neste retrato, sua rejeição é alta.
Dilma - Se você me explicar por que em uma pesquisa dá um índice e em outra dá outro, eu te respondo. Em uma dá 40% e em outra dá 20%. É um erro fora de qualquer margem. Em termos de estatística. Não tenho idéia.
Pergunta - Teria relação com o desconhecimento?
Dilma - Sem dúvida, uma parte é desconhecimento.
Pergunta - Com qual calendário a senhora está trabalhando?
Dilma - Se eu achar um espacinho assim para respirar... O partido vai tirar e indicar. Você não pode ser candidato de você mesmo. Não sou nem pré-candidata. Para isso, eu preciso passar pelo congresso do partido, que ocorre em fevereiro. Aí você começa o processo de construir a candidatura. Aí o prazo de saída do governo é final de março. Depois, tem a convenção em junho. Agora, acho que a legitimidade política se dá em fevereiro, com o congresso.
Pergunta - E a senhora se sente confortável em permanecer no cargo até o limite da desincompatibilização?
Dilma - Olha, nós ainda não discutimos isso não. Por um simples motivo: não dá tempo e não está na pauta. Sabe, é que não funciona igual as pessoas pensam. Nós ainda não discutimos como é que vai ser.
Pergunta - A convicção é de que a senhora vai enfrentar o governador José Serra?
Dilma - Eu não posso dizer isso, pois não posso decidir pelo próximo, pelo outro partido. Não sei quem eles vão escolher.
Pergunta - E tem algum candidato de preferência da senhora?
Dilma - A gente não tem que escolher, tem preferência quando a gente apoia.
Pergunta - Mas concorda com o presidente Lula no sentido de que sendo ou a senhora ou o Serra, o País estaria em boas mãos?
Dilma - Eu acho que hoje no Brasil é muito difícil o País não estar em boas mãos. Até porque o nosso povo sabe muito e ganhou muito neste tempo. E não vai querer perder não. Acho que vai comer um tranco quem tentar tirar da população as suas conquistas.
Pergunta - Os mensalões igualam os partidos no quesito ética ou falta de ética?
Dilma - Não concordo com isso, não. Eu acho que tem uma tentativa estranha de transformar tudo em igual. Isso não é verdade. Primeiro é desigual a forma pela qual se condena as pessoas. Eu acho que não pode condenar sem provas. E muitas pessoas foram condenadas sem prova nenhuma. Eu acredito que o trato da questão da corrupção tem que ser drástico. Concordo e fiquei muito feliz quando o presidente enviou o projeto que transforma a corrupção em crime hediondo. E nos dois lados: o corrupto e o corruptor. Porque também tem outra coisa estranhíssima no Brasil. Só aparece um lado, sendo que é uma moeda de dois lados. Só ocorre se tiver os dois participando. Foi usado durante muito tempo como instrumento político. CPIs, investigações, destruições de histórias pessoais... Eu acho que isso não leva a nada em matéria de combate à corrupção e de melhoria da ética. O que leva a alguma coisa é lei concreta como a que o presidente enviou ao Congresso. E a reforma política. Nós precisamos tirar as razões pelas quais o financiamento de campanha provoca práticas de corrupção e, ao mesmo tempo, tem outro efeito nefasto. Não torna as condições e oportunidades de disputa iguais. Isso tem de mudar no Brasil.
Pergunta - Há distinções entre os casos?
Dilma - Você conhece algum processo de crime que possa ser igual?
Pergunta - O modo de operação é similar.
Dilma - O modo de operação é o financiamento de campanha, é isso que você está dizendo que é igual? Qual a igualdade entre eles? O que acho que não está certo é transformar uma questão em questão a ser resolvida no plano político. Ela tem de ser resolvida no campo criminal. É crime. Não é um problema político. Tem que mudar a regra política. Você tem que dar uma contribuição no positivo. O que? Você tem de eliminar a tentação. A maior tentação. Então, também uma reforma política. E por isso nós mandamos para o Congresso o financiamento público das campanhas.