Quando o exército árabe invadiu Alexandria, no ano de 641 do calendário ocidental, deparou-se com uma enorme biblioteca. Para que serve? Na dúvida, segundo a lenda, os invasores questionaram um sábio califa sobre o destino a ser dado a esse monumento ao saber. “Se o que vem dito nos livros concorda com o Livro de Deus, eles são desnecessários, se discorda são dispensáveis”. Com isso a cidade ganhou três meses de combustível, sendo queimados milhares de rolos de papiro (A conturbada história das bibliotecas, Mathew Bartles).
Com toda certeza não foi um espasmo de fanatismo religioso que motivou alguém, do nosso mais tradicional Instituto de Educação, o “Ernesto Monte”, a mandar queimar e jogar no lixo todos os exemplares da literatura universal doados por Antonio Garcia, em 1938. Este imigrante português veio de Trás-os-Montes, onde não havia livros. Fundou a Casa Lusitana, uma loja de departamentos que durante mais de três décadas foi o orgulho dos bauruenses. Criou o BAC, onde o Pelé aprendeu a jogar. Queria que os jovens lessem. O filho único mandou estudar no Colégio São Bento, na Capital e, depois, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ele mesmo formou-se pela escola da vida, mas não era esse o ideal que queria para uma nova geração que haveria de fazer do Brasil um país menos ignorante. O descarte das obras literárias do Instituto pode ter sido um ato neo fundamentalista calcado na internet, hoje com 56 milhões de usuários no Brasil. Estes não querem saber de ler mais nada impresso em papel. O twitter limitado a 140 palavras é o suficiente. A frase de Mahatma Gandhi é pertinente: “Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura. Basta fazer com que as pessoas parem de lê-los”.
Os rolos de papiro dos egípcios viraram cinzas há quase 1400 anos. Antes deles os sumérios viram os seus “livros” – tijolos de barro cozido com caracteres em forma de cunha – se transformarem em pó nas mãos dos conquistadores. A queima de exemplares impressos e reveladores de conhecimentos acumulados ao longo dos séculos não foi privilégio de exércitos em luta. A Igreja Católica, na Idade Média, na busca de evitar heresias, criou uma série de mecanismos para combater os contestadores da doutrina. Uma delas – queimar livros.
No Instituto de Educação “Ernesto Monte” passaram professores até hoje lembrados com saudades e admiração pelos seus ex-alunos. Justamente ali, berço e primeiro passo na formação de uma elite que hoje faz a grandeza desta cidade, ali, no velho casarão da Praça das Cerejeiras, alguém mandou queimar algumas dezenas de obras literárias. Por certo, nenhuma motivação doutrinária influenciou a atitude. Quem sabe um funcionário simplório, entre a higiene e o saber; entre a traça e o traço tenha optado por mais espaço e menos ácaros.
Os alemães invadiram a Rússia na Segunda Guerra Mundial, alcançaram a casa de campo de Tolstoi e atearam fogo nos seus livros. Se o general nazista tivesse lido “Guerra e Paz”, em vez de destruir os volumes, certamente teria retirado as suas tropas do território ocupado antes da chegada do inverno. A Batalha de Stalingrado não teria ocorrido e o exército alemão teria evitado uma dolorosa derrota.
Assim como o fogo, a tecnologia moderna, principalmente na área da informática, foi outra grande descoberta do homem. É fato que os avanços tecnológicos mudaram nosso cotidiano. O meio livreiro se viu envolvido numa revolução informacional, sendo este um mal (ou um bem) necessário, ainda mais com o mercado globalizador instaurado a partir da década de 1980. Resultou que atualmente, a batalha se trava entre o livro e a rede de computadores. Há milhares de textos disponíveis gratuitamente na internet, sendo possível encontrá-los como material de pesquisas e raramente livros. Criou-se também com esse novo suporte, os livros eletrônicos - o kindle – com tudo o que interessa ao cliente. Já os textos multimodais, que misturam linguagem verbal com não-verbal, sendo que algumas trazem animações, são grandes atrativos e competem com o livro impresso. Há muitos textos interessantes na net, muitos dos quais são direcionados ao público infanto-juvenil, que pode encontrar aí as primeiras experiências como leitor, criando-se uma intimidade com esse meio e um encantamento que pode se estender por toda a vida.
O livro já resistiu a muitas batalhas e bravamente sobreviveu. Até quando, não sei. A concorrência dos suportes mais dinâmicos e menos cansativos é cada vez mais forte. Melhor ficar de olho nos seus livros, antes que alguém os descarte no primeiro caminhão de recicláveis.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC