Articulistas

Dos modos da moda...

Janira Fainer Bastos
| Tempo de leitura: 3 min

Outro dia fui surpreendida com o comentário de uma colega de trabalho sobre não ser capaz de classificar-me estilisticamente falando. Ela é elegantíssima principalmente com aquele vestido de bolinhas pretas que, acabei adquirindo um de bolinhas brancas. Bem, costumo quebrar a formalidade de algumas roupas usando sandálias de plástico, assinadas pelo Herchcovitch, mas são de plástico como as Havaianas, das quais tenho uma de cada cor. Outras vezes, transformo a informalidade de uma bermuda ou jeans com blazer ou camisa de seda. Minha maneira de vestir é diferente e isso se deve ao fato de trabalhar com cultura e freqüentar um grupo criativo em tudo, até nos trajes. Pensei: graças a Deus, seria o comentário da Luciana Bergamini. O Jair Marangoni falaria: ela me lembra Anäis Nin. O Marcelo, de forma blasé, daria de ombros. O Eto Coelho diria: ela é fashion, chamando a atenção para o lenço jogado em meu ombro. A discussão passou para ele e à maneira como as mulheres o estarão usando no próximo inverno.

Como na hora não pude conversar com minha colega decidi escrever. Consultada, ela deu o título ao texto. Obrigada, Jussemy... Vou falar dos modos, então!

Uma amiga paulistana costumava colocar dois anos de diferença entre nós. Eu antecipando a moda em um ano e ela comprando em liquidações, daí o diferencial. Rindo, ficava me questionando o que seria moda. Para os sociólogos é um fenômeno cultural consistindo na mudança periódica e coercitiva de estilo. A maioria acredita ser uma proposta para uma estação. Vejo como uma renovação no estilo pessoal de cada um. Um vestido usado na formatura do meu irmão há mais de vinte anos foi transformado em um blazer inspirado em outro visto na coleção da Maria Bonita. A peça que deu margem ao comentário está no meio da canela e tem uns cinco anos. É um comprimento esquisito, mas gosto dele, talvez por pensar no comentário do Jair, Anäis Nin, hein? Por dentro ou por fora?

Antigamente existia uma forte homogeneidade de gosto, por influência da Alta Costura. Hoje esse segmento não veste três mil mulheres ao ano. De nome francês e invenção americana, o prêt-à-porter predomina. Os estilistas vendem seus desenhos. Eles são reproduzidos, fazendo com que as lojas (às vezes, os camelôs) tenham o produto pronto antes da apresentação nas semanas de moda. Desfiles transformados em happenings, onde costumo babar, quando fico em frente às passarelas na São Paulo Fashion Week.

Mas, voltando à questão qual seria meu estilo? Todos e nenhum. Sou única e a moda me permite individualizar cada peça. Hoje se emprega o termo costumizar às mudanças dos usuários em suas roupas. Isso não é novidade. Há mais de cem anos as parisienses faziam o mesmo. Iam aos desfiles, encomendavam e pediam modificações. Só as estrangeiras compravam e usavam o original. Mas, cadê a definição? Bem, sou colorida... Atentem para o detalhe: de cor, não de Collor viu? Gosto de um pretinho básico, mas adoro cores e lenços. Minha herança africana? Talvez, pois de acordo com Gilberto Freyre todos os brasileiros possuem nas veias, o sangue das três raças que compõe nossa etnia. Teria eu alguma coisa de original? Não creio, mesmo considerando-se que todo ser humano carrega uma matriz de nome inconsciente coletivo e isso deve fazer uma diferença. Dentro do meu estão à irreverência e a insubordinação às regras, herança da minha maravilhosa bisavó.

A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC

Comentários

Comentários