Aos leitores que tiveram a paciência acompanhar meus comentários ao longo do ano, desejo boas festas e um feliz e próspero 2010. Volto a encontrá-los neste espaço na segunda quinzena de janeiro para continuar a discutir os problemas de nossa economia e, certamente, um pouco mais de política, dado que as campanhas eleitorais dominarão as atenções em boa parte do ano. O título deste comentário é uma provocação e um lembrete do clima no final de 2008, quando importávamos o pânico que dominou os mercados financeiros no hemisfério norte. Na expectativa de um desastre econômico em 2009 (antevendo os dividendos políticos nas eleições do ano seguinte) algumas pessoas se divertiram desejando um “feliz ano novo” apenas para 2010, quando festejariam o tombo final do governo Lula.
A sinistrose não vingou. O governo cresceu na crise e a surpreendente performance do Presidente energizou o mercado interno, evitou o desemprego e sustentou a renda, de tal sorte que encurtou pela metade o “longo” período de recessão que a todos parecia inevitável. A variação do PIB ficou próxima de zero no ano da crise, em relação ao anterior (de forte crescimento), mas a economia brasileira chega a 2010 com um crescimento já “contratado” de 5% no mínimo, com possibilidade real de chegar a 6%. Isso, com inflação controlada, obediente à meta de 4.5% fixada pelo Conselho Monetário e sem ameaça de perturbação externa. Enfim, uma perspectiva de crescimento robusto, com estabilidade, é algo que não acontece em ano de eleições desde que terminou o regime autoritário, em 1985.
No que diz respeito ao comportamento da economia, portanto, acredito que 2010 será um ano bom e só podemos desejar que ela continue crescendo de forma sustentada em 2011, 2012, etc. O que vai acontecer, realmente, depende da escolha que a sociedade vai fazer nas urnas, daqui a dez meses, para a Presidência da República, para os governos dos Estados e ao preencher as cadeiras do novo Congresso. Essas vão ser as decisões cruciais que cada cidadão vai tomar. O futuro é conseqüência.
O próximo governo terá que dar prioridade absoluta aos investimentos em inovação, ao desenvolvimento tecnológico, para que o Brasil seja protagonista importante desta revolução que vai mudar profundamente os processos da produção industrial e na agricultura em todo o mundo. Ela está em andamento muito mais acelerado do que a maioria das pessoas percebe, a partir da substituição da energia de origem fóssil pelas fontes alternativas. Já é realidade no setor de transportes, com o etanol e está maturando com o carro elétrico e hidrogênio (que inclui ônibus e caminhões).
Os Estados Unidos estão na liderança desse desenvolvimento. A fórmula do crescimento é inovação + crédito e é lá que as coisas acontecem. O governo Obama colocou um prêmio Nobel de física à frente da Secretaria de Ciências e direcionou 700 bilhões de dólares (quase a metade do PIB brasileiro) para pesquisas em energia alternativa. O objetivo nacional deles é reconquistar a autonomia energética, deixar de depender do petróleo importado, muito mais do que a redução das emissões de gases-estufa.
O Brasil é também um país inovador. O que falta é suporte do crédito, de forma contínua, para sustentar as inovações. Nós alcançamos o “estado da arte” na produção de combustíveis para transporte e a Embrapa fez uma revolução na produtividade de nossa agricultura em retorno aos parcos investimentos que recebeu. Vamos precisar de uma nova concepção de crescimento, com o Estado induzindo os investimentos em inovação tecnológica, para continuar substituindo as fontes de energia fóssil nos sistemas de transporte e preparar a indústria e serviços para a utilização dos novos padrões de energia alternativa.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br