Política

Estado busca blindagem contra a dengue

Por Fábio Zambeli | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

A combinação de fatores climáticos, como a incidência de chuvas e de temperaturas acima da média para a primavera, com o descaso da população ante os focos do mosquito transmissor ameaça trazer de volta o ‘fantasma’ da dengue ao Estado de São Paulo.

É o que avalia o secretário estadual da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, para quem somente uma vigilância permanente é capaz de deter a doença.

Em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ), ele sustenta que o alerta deve ser mantido, a despeito da queda vertiginosa nos casos em território paulista desde 2007.

“Isso é que nos preocupa. Estamos com uma primavera extremamente quente e chuvosa. E isso facilita a proliferação do mosquito. Todos os meteorologistas dizem que o verão será muito quente e chuvoso. Ou seja, ou a gente elimina agora os focos de criação e mata os mosquitos agora no final da primavera ou vamos enfrentar problemas sérios no verão”, afirma o secretário.

Em 2007, São Paulo registrou mais de 92 mil casos de dengue. Um ano depois, esse número caiu mais de 90%: foram 7.364 registros da doença. Até outubro deste ano, o Estado detectou 6.579 contaminações.

“A situação está sob controle no Estado. Isso faz com que as pessoas relaxem um pouco e digam que a dengue está resolvida. Sabemos que 80% dos focos do mosquito estão dentro das casas. Então, se a gente não tiver a mobilização das pessoas, evitando aquela água parada no vaso, a caixa d’água destampada, o pneu no quintal exposto a chuva, o risco da epidemia passa a ser iminente.”

Para massificar o combate à dengue principalmente nos municípios que registraram maior incidência proporcional de criadouros do aedes aegypti o governo estadual conta com um ‘exército’ simbólico de 12 mosquitões —bonecões que serão expostos em locais de grande fluxo de pessoas nas cidades que apresentarem índice elevado de contaminação (veja quadro nesta página).

“O intuito é conscientizar a população local, as ONGs, para mostrar que o mosquito não foi embora. Se a gente trabalhar bem agora, a gente vai conseguir passar o verão sem a dengue voltar para São Paulo. As equipes estão visitando mais de 100 cidades.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade- Quais as singularidades da campanha contra a dengue neste verão, dada a situação de retração nos casos da doença?

Luiz Roberto Barradas Barata - Como estamos com número de casos menor que no ano passado e no ano passado já tivemos uma redução de 90% em relação a 97, a situação está sob controle no Estado. Isso faz com que as pessoas relaxem um pouco e digam que a dengue está resolvida. Sabemos que 80% dos focos do mosquito estão dentro das casas. Então, se a gente não tiver a mobilização das pessoas, evitando aquela água parada no vaso, a caixa d’água destampada, o pneu no quintal exposto a chuva, o risco da epidemia passa a ser iminente.

JC- Como o Estado está agindo para mapear os focos que ainda resistem?

Barradas - Fizemos uma pesquisa desde o início do ano para saber a porcentagem das casas que tem criadouro do mosquito da dengue. O agente vai casa a casa contando que casas têm o foco. Se você tem menos de 5% das casas contaminadas, o risco de epidemia é pequeno. O nosso objetivo é manter todos os municípios paulistas com um índice de infestação menor que 5%.

JC- É possível eliminar os focos?

Barradas - Nosso objetivo não é acabar com o mosquito, pois está fora do alcance. Pois aí teríamos que eliminar o mosquito em outros Estados, o que é impossível. Queremos, sim, reduzir. Até agora estamos conseguimos isso. Porém, isso [a redução dos casos] tem consequência, que é o relaxamento. Na hora que as pessoas relaxam, aparece o mosquito.

JC- Como, então, chamar a atenção das pessoas para os riscos?

Barradas - Resolvemos inovar. Fizemos um levantamento e estamos entregando um mosquitão, um boneco de plástico gigante do mosquito da dengue, às cidades que têm índice mais alto. O intuito é conscientizar a população local, as ONGs, para mostrar que o mosquito não foi embora. Se a gente trabalhar bem agora, a gente vai conseguir passar o verão sem a dengue voltar para São Paulo. As equipes estão visitando mais de 100 cidades. Resolvemos introduzir esta novidade em 12 cidades que têm maior índice para alertar as pessoas. Motivar o pessoal para que sejam trabalhados os focos do mosquito.

JC- Com o período de férias, aumenta o fluxo de turistas em direção ao litoral. E sabemos que nestas cidades há uma preocupação maior com relação às casas de veraneio. Qual a ação específica para as cidades de praia?

Barradas - Exato. Estamos tendo atenção com o Guarujá, por exemplo. Pode ter algum bairro ou outro em situação pior. Por isso, o mosquitão está lá. Também estamos no pedágio distribuindo folhetos sobre os cuidados nas casas de veraneio, pedindo às pessoas que verifiquem se há recipientes ou condições que favoreçam o surgimento de criadouro do mosquito. A gente precisa continuar o trabalho, de forma incessante. No Litoral Norte, não há um município que exija trabalho especial.

JC- A dengue tem sua proliferação diretamente relacionada ao clima. Com as chuvas e o calor chegando antes mesmo do fim da primavera, aumenta o risco?

Barradas - Isso é que nos preocupa. Estamos com uma primavera extremamente quente e chuvosa. E isso facilita a proliferação do mosquito. Todos os meteorologistas dizem que o verão será muito quente e chuvoso. Ou seja, ou a gente elimina agora os focos de criação e mata os mosquitos agora no final da primavera ou vamos enfrentar problemas sérios no verão.

JC- O Estado recorreu a estratégias como o uso de torpedos para alertar a população. Isso voltará a ocorrer?

Barradas - Fizemos um acordo com a operadora de celular Vivo para que enviem alertas aos usuários. O objetivo é mobilizar a população mesmo e este tipo de comunicação funciona muito. As pessoas precisam ficar atentas e devem lembrar sempre que o cuidado deve ser permanente.

JC- Em anos anteriores, houve um grande aparato montado nos corredores de entrada do Estado, principalmente nas divisas com Rio de Janeiro e Mato Grosso. Isso se repetirá?

Barradas - Este ano não. Nem com o Rio nem com Mato Grosso. A situação está sob controle nos dois Estados. O pessoal da divisa não pode bobear porque a proliferação é muito rápida.

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