São Paulo - O menino de 2 anos que está internado na Bahia com agulhas no corpo recupera-se bem da cirurgia realizada anteontem, quando foram retirados quatro objetos alojados. De acordo com o Hospital Ana Néri, em Salvador, o ecocardiograma realizado ontem revelou que o coração do menino funciona normalmente.
Apesar de continuar internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ele já respira sem a ajuda de aparelhos e seu estado de saúde é estável, informou a assessoria do hospital.
Entretanto, a criança deverá passar por outras duas operações, que devem ocorrer na semana que vem. Amanhã, a equipe médica do hospital irá se reunir para definir as datas de retirada de agulhas localizadas próximas à bexiga e ao intestino do garoto.
Ontem, o hospital informou que, ao todo, a criança tinha 31 agulhas espalhadas pelo corpo - e não 42, como divulgado anteriormente -, sendo que quatro foram retiradas anteontem. Anteriormente, o Hospital do Oeste, em Barreiras (BA), - onde o garoto foi atendido inicialmente -, estimava em cerca de 50 objetos.
Ainda segundo o hospital, a mãe do menino permanece no local ao lado da criança, mas evita falar com a imprensa sobre o assunto.
A polícia deve encerrar as investigações do caso na semana que vem. Estão presos o padrasto da vítima, Roberto Carlos Lopes, 30 anos, que confessou ter introduzido as agulhas no enteado em um ritual religioso, Angelina dos Santos, 47 anos, amante dele, e Maria Nascimento, que se diz mãe-de-santo.
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Antropólogo não acredita em ritual de magia negra, mas em crime passional
São Paulo - O menino de 2 anos que teve cerca de 30 agulhas introduzidas no corpo não foi vítima de um rito religioso, mas possivelmente de um crime passional, disse o antropólogo Cláudio Luiz Pereira, da Universidade Federal da Bahia, que estuda casos de sacrifícios envolvendo crianças em rituais.
Segundo a Polícia Civil de Ibotirama (643 km de Salvador), Roberto Carlos Magalhães Lopes, que vivia com a mãe do garoto havia um ano e meio, disse em depoimento que o crime ocorreu em rituais de magia negra com a ajuda da amante e uma mãe-de-santo.
As sessões, diz a polícia, eram uma forma encontrada pelo suspeito para se vingar da mãe que, segundo a versão, não o deixava viver com a amante.
Para o antropólogo, é preciso cuidado ao relacionar o crime a rituais, já que estes envolvem técnicas e meios para se obter um fim e contam sempre com um sacrificante (filhos dados como oferenda, por exemplo) e os sacrificadores (executores). “Neste caso, não estão claras essas peças. O que parece é que a crueldade foi motivada pela honra, como conseqüência de dor de amor de alguém que passava por sofrimento psíquico.”
Para Pereira, houve um esforço dos suspeitos para caracterizar a ação como um ritual. No entanto, os elementos usados parecem “aleatórios”, segundo ele, já que misturavam agulhas - “ferramenta” do vodu, usada para espetar bonecos similares à “vítima”- com balas (para atrair a criança) e água benta, elemento do catolicismo. O pesquisador afirma não haver sentido punir a criança como se ela correspondesse à mãe.
Outros casos
Pereira é autor de uma tese de doutorado feita a partir de um caso, ocorrido em Salvador, em abril de 1977, que resultou na morte de oito crianças - lançadas ao mar para os tubarões como sacrifício. Os algozes eram líderes de uma comunidade messiânica composta por 32 pessoas que acreditavam que a morte das crianças era uma exigência de Deus.
Após julgamento, relembra o autor, os mentores foram internados em manicômios e depois soltos. A condenação na Justiça não ocorre porque, nesses casos, os autores são considerados doentes mentais - e, portanto, inimputáveis. “Eram pessoas muito simples que entraram numa loucura coletiva. Não são criminosos comuns”, diz o especialista.
Em seu estudo, ele se deparou com outro caso de sacrifício, também ocorrido em Salvador, nos anos 90, em que duas crianças foram mortas estranguladas e com sete golpes de faca na vagina. Com elas havia bilhetes com as palavras: “homem, trabalho e dinheiro”.
O suspeito foi um “sacrificador” contratado por uma parente de uma das vítimas.
Segundo o especialista, esses tipos de rituais com sacrifícios religiosos ocorrem apenas quando as lideranças “perdem o controle” em razão de doenças mentais desenvolvidas durante o envolvimento com determinada crença. É passível de ocorrer em qualquer religião, defende ele.
Marcelino Gomes de Jesus, religioso de um terreiro de candomblé em Cachoeira (BA), diz haver “preconceito e desinformação” sobre religiões afro no País, que trabalham em rituais com folhas, água e comida, sem machucar ninguém.