Rodrigo Agostinho, vereador por dois mandatos, secretário municipal do Meio Ambiente por pouco mais de um ano no governo passado, ambientalista, 31 anos, conversou com o JC sobre os erros, acertos e inúmeros recuos que fizeram parte de seu primeiro ano de gestão. Na entrevista, Rodrigo mostra o que pensa um prefeito jovem, centralizador, que reproduz em abundância o pronome “eu” e que tentou aprender com a formação de um governo heterogêneo tanto no perfil político do secretariado quanto na inexperiência de alguns de seus principais colaboradores.
Ele fala do que fez, do que deixou de fazer e da convivência com trombadas dentro do primeiro escalão, além da frustração de não ter dado conta de projetos de maior vigor para dar cara ao seu primeiro ano (como o da pavimentação de 800 quadras e a instalação de unidades de Saúde) e da instabilidade da frágil maioria construída na Câmara Municipal de Bauru.
Jornal da Cidade - Escolha pontos onde acertou e errou em 2009.
Rodrigo Agostinho - Eu acho que acertei em grande parte da escolha da minha equipe. Acertei no sentido de me esforçar ao máximo, no sentido de atingir meus objetivos, muitas vezes peguei processo, coloquei debaixo do braço e eu mesmo fui correr de secretaria a secretaria para ver as coisas saírem. Acho que errei em alguns momentos, até por expor alguns problemas do governo publicamente, não confiar em algumas pessoas, confiar demais em algumas pessoas, de achar que eu poderia fazer muito mais do que tenho capacidade para fazer. Às vezes a gente fala: vamos fazer 800 quadras de asfalto, estou licitando elas, mas achar que se faz 800 quadras em um ano sem saber que as usinas de asfalto, mesmo das empresas privadas, não têm capacidade, acho que foi erro. A gente cria expectativa demais. Eu mesmo me intitulo centralizador, mas eu deixo os secretários produzirem.
JC - Como equilibrar a postura de centralizador e o perfil de cada secretário?
Rodrigo - Eu centralizo no momento de dizer aonde vai ser investido o dinheiro, todos os processos de compras passam por mim, de definir as estratégias de governo. Centralizo na hora de criar estratégias na contratação de pessoal, mas por outro lado, eu deixo o secretário produzir. Todo o secretariado no início do ano fez seu planejamento, deixei eles à vontade para produzir. Claro que cobrando algumas coisas que achei que deveria. Agora, eu acho que em alguns casos o secretário ficou um pouco solto demais.
JC - Você pediu para a Secretaria de Administração exercer também o papel de pente-fino?
Rodrigo - Não, mas tem três secretarias que têm obrigação de fazer pente-fino em todas as contas da prefeitura: Jurídico, Administração e Finanças. O Jurídico na hora de definir os editais de licitação, a Administração no momento de fazer as compras e a Finanças na hora de pagar. Os três secretários receberam essa incumbência e fiz essa exigência para eles, e estou dando a estrutura que eles me pediram para dar funcionamento dentro da prefeitura. A Administração teve esse ano concurso para analista de recursos humanos, contador; Finanças contratou contador, o Jurídico só não fez concurso para procurador porque ainda está sob júdice.
JC - Por que, apesar de ter aberto concursos, sua gestão não conseguiu atacar a lentidão da máquina?
Rodrigo - Consegui, mas a gente é muito crítico. Vou dar alguns exemplos, com todas as reclamações que a gente tem de projeto da Seplan, nós fizemos 40 projetos grandes de drenagem, que vou poder apresentar para o governo do Estado no ano que vem, 20 projetos de escola, três projetos de UPAs, um a gente terceirizou e os outros três nós fizemos lá dentro. Um monte de projetos de praça, de sistema viário, o projeto da Nações Norte nós entregamos no começo do ano. Houve uma produção muito grande, mas eu não consegui contratar todos os profissionais. Aí é uma questão de salário. Fiz o concurso de engenheiro, consegui repor um pouco o quadro, assim como o de arquiteto, mas não no nível que eu preciso. Agora acho que a gente não precisa trabalhar só com quadro próprio. A gente pode terceirizar projetos. Agora, nós temos uma resistência muito grande interna, dos servidores, em trabalhar com projetos terceirizados.
JC - Então o foco para fazer o governo andar estava onde?
Rodrigo - Projeto também tem uma seguinte questão: a gente acha que um arquiteto, um engenheiro faz um projeto de um hospital num mês, mas não faz. Se tem um tempo de criação, de desenhar, de planejar, de produzir, muito lento às vezes. A gente faz parte do processo. Precisa ter uma estrutura melhor? Acho que precisa. Gostaria de ter tocado numa estrutura melhor? Gostaria. Estou fazendo concurso agora para topógrafo e para desenhista. Agora os salários da prefeitura não são compatíveis com os de mercado. Por isso, eu preciso mexer na grade salarial da prefeitura.
JC - Se você sabia dessa estrutura desde o início do ano, não era o caso de mexer nisso?
Rodrigo - Eu não posso mandar um projeto de lei para a Câmara aumentando só o salário do desenhista. Aliás, posso, mas isso seria uma maneira extremamente injusta de eu lidar com a grade salarial. Eu tenho em vários setores. Agora até com relação ao próprio pedreiro. O setor da construção civil está pagando mais de R$ 1,5 mil e a prefeitura pagando R$ 500,00 por mês. Agora em janeiro está indo o plano de cargos e salários da prefeitura toda. A gente está trabalhando agora com salários compatíveis aos de mercado. Isso vai ajudar muito nos próximos processos de contratação.
JC - O cidadão que não tem atendimento na Unidade de Saúde e não tem asfalto em frente à casa dele é mais imediatista que jornalista...
Rodrigo - Com certeza e dou razão. Quando o pessoal me xinga, ontem mesmo ligaram para me xingar, uma mulher do Jardim Silvestre, reclamando da rua, eu disse a ela que toda a chuva que tiver vai levar embora a rua. Eu arrumei o bairro cinco vezes esse ano, mas ela vai ter esse problema enquanto eu não asfaltar seu bairro. Falou que ia queimar pneu. Falei para me chamar que eu vou lá ajudar a acender o fósforo.
JC - O fato do governo ser heterogêneo e com muitos jovens te deixou com receio de errar?
Rodrigo - Existem dois tipos de heterogeneidade. Um deles é político. O Brasil tem muitos partidos. Ninguém governa sem partido, sem composição política. Isso é difícil. Por mais que você tente contemplar os partidos que estiveram juntos com você, sempre vai ter aquele outro que se sente preterido. Sempre tem um partido que tem um cara muito bom para uma determinada área, mas essa vaga já está preenchida. Segundo é o grau de conhecimento da máquina pública que cada um tem. Eu procurei, no período de transição, chamar cada um dos secretários e conversar. Só que isso não é suficiente. É um aprendizado diário, do próprio secretário saber lidar com a máquina pública.
JC - Na Educação, seu governo não conseguiu enviar à Câmara o Estatuto do Magistério, o Plano Municipal de Educação e o de Cargos e Salários.
Rodrigo - Não dá para mandar três projetos, que mudam a cara da Educação, seja do ponto de vista interno, como o estatuto, seja externo, sem discutir com o Conselho Municipal de Educação e servidores. Os três estão prontos e deverão ser entregues à Câmara em janeiro.
JC - Sua gestão vai ter de construir diversas escolas. Quando sai a alteração do projeto pedagógico?
Rodrigo - Esse é o maior desafio que a gente tem. Porque a partir do momento que eu conseguir reformar toda a estrutura física, acabar com o problema de falta de vaga, ao mesmo tempo eu tenho que encaminhar para um projeto pedagógico melhor. Eu vou ter muita resistência interna, professores que se acostumaram com um tipo de ensino a vida toda, a dar aula com xerox, vou ter que discutir um modelo pedagógico. As escolas públicas não devem em nada para as particulares do ponto de vista de estrutura física. Por outro lado, eu não tenho um projeto pedagógico igual ao das escolas particulares. Não sei se vou implantar apostila. A gente vai discutir.
JC - Quando e como a prefeitura vai avançar na informatização, nos dados em rede na Educação e Saúde? Você está preparado?
Rodrigo - A questão não é estar preparado. A questão é que a gente ainda precisa fazer algumas mudanças estruturais. Nós acabamos de fazer concurso para programador e analista, então a gente vai ter quadro. Mas cada uma dessas pastas vai ter que discutir que projeto elas querem. A prefeitura teve, infelizmente, um projeto de informatização que acabou não sendo bem sucedido. Um projeto contratado na Fundunesp. Banco de dados está cheio por aí, dá para comprar um no camelô. Mas não dá para o mesmo tratar de alunos e de pacientes. O sistema tem que ser inteligente. Espero que as secretarias possam contratar esses sistemas, talvez agora em 2010, e manter uma informática adequada. Vai ter de contratar softwares. Não vá pensar que só o da Fundunesp irá resolver. É uma ilusão.
JC - Você vai conseguir entregar a estação com instalações hidráulica e elétrica novas no próximo ano?
Rodrigo - Sim. Nós estamos resolvendo as últimas pendências. No dia 30 (dezembro), temos uma reunião em São Paulo com a Secretaria de Patrimônio da União para ver se a gente consegue fazer a transferência do imóvel, que pode se dar no apagar das luzes de 2009. Toda a documentação era bastante complicada. Mesmo tendo uma decisão judicial que dava garantia para o Sindicato dos Ferroviários, não havia sido feita a transmissão do imóvel, da documentação. Conseguindo acertar o pagamento agora e a documentação, a gente vai, logo em seguida, entrar na estação. E vamos começar a ocupação do prédio e, ao mesmo tempo, as reformas. Algumas coisas nós vamos poder reformar com estrutura própria da prefeitura, todo o restante, a gente vai elaborar ata de registro de preço para poder ir conduzindo andar por andar, prédio a prédio. Lá a gente deve levar, num primeiro momento, a Câmara Municipal e duas secretarias grandes que estão em prédios alugados, que são a Secretaria de Saúde e a de Educação.
JC - Como ter intersetorialidade se tem secretário trombando, como na Educação e Administração?
Rodrigo - Eles sentaram muitas vezes para conversar. Às vezes não deu certo. Em todo setor há problema, conflito, um diz sim, outro diz não. Isso é normal. Dependendo do grau de dificuldade de relacionamento, isso indica para o prefeito que ele tem que fazer mudança. Eu ajudei a aparar inúmeras arestas. Às vezes a gente mesmo tem dificuldade na intersetorialidade. O que eu tentei fazer para diminuir isso: reuniões grandes com o meu secretariado. Para aproximar, muitas vezes eu chamava os secretários juntos, até churrasco, do ponto de vista de aproximar mais as pessoas. Eu falava: vamos conversar, vamos tentar entrar num acordo, aproximar. Na verdade nós vamos fazer mudanças e elas estão sendo desenhadas ainda. Você tira alguém, tem que saber quem vai repor. Então é algo que tem que ser feito com bastante tranqüilidade.
JC - Se você é jovem e centralizador, você ouve quem?
Rodrigo - Ações que são temáticas, eu escuto o secretário da pasta, os secretários, eu tenho pessoas que eu conheço que me socorrem. Tenho algumas pessoas mais próximas que eu escuto. Não é porque eu sou centralizador que sou uma unanimidade. Eu acho que muitas vezes as pessoas acham que é defeito, vejo isso como qualidade. Isso soa até egocêntrico, mas há as possibilidades de posições. Eu não sou o dono da verdade, eu tomo conhecimento, eu discuto, muitas vezes eu fico sabendo pela imprensa.
JC - Isso te incomoda?
Rodrigo - Não me incomoda, muitas vezes, ter de corrigir uma posição de um secretário. O secretário defende que tem que ser da cor roxa, o prefeito defende que deve ser da cor verde. Se precisar, vamos mudar de cor. Acho que é normal que isso aconteça. Não tem mais espaço para prefeitos que pensam que são os donos da cidade, democracia está aí para isso. Não acho que isso seja defeito, e muitas vezes eu sou criticado por isso, por rever algumas decisões.
JC - A Cohab que você desenhou na eleição é completamente diferente, com milhões em dívidas. E agora?
Rodrigo - Eu nunca disse que o mutuário não precisava pagar a prestação para comer. O que nós fizemos e que foi um compromisso de campanha e nós cumprimos, foi abrir a possibilidade dos mutuários negociarem suas casas. Nós abrimos por seis, sete meses. Aquilo que a gente podia diminuir dentro da lei, fizemos, para que a pessoa pudesse voltar a pagar a casa. A Cohab vai ter que mudar. Ela tem que cobrar o mutuário, nunca disse que não tinha. Se precisar liquidar a Cohab, eu liquido.
JC - Falar em Sabesp como opção para antecipar obra de esgoto dá alergia no meio político.
Rodrigo - Tem várias palavras que são proibidas em Bauru. Acho que tem que ser colocado para a população todas as opções, para os vereadores também. Não é a minha proposta predileta, muito provavelmente eu não encaminhe para a Câmara a proposta da Sabesp. Mas eu tenho que mostrar todas as opções que a gente tem. Em muitas cidades foi boa. Em Bauru tem uma diferença de tarifa muito grande, por isso dá alergia. Por outro lado, foi promessa minha de campanha não passar para a Sabesp. Houve uma discussão política na campanha. Agora, é algo que está sendo discutido.
JC - Em 2010, você sobe no palanque da Dilma ou do Serra?
Rodrigo - Em primeiro lugar, nós vamos estar discutindo isso com o partido. O PMDB ainda está com discussões internas. O partido está hoje alinhado tanto com o governo do Estado quanto com governo federal. Acho que a discussão mais importante do próximo ano é a de que Bauru precisa de maior representatividade. Nós temos um bom deputado, que é o Pedro Tobias, mas precisamos ampliar isso.