Bairros

Atividades ajudam no desenvolvimento infantil

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Que tal aprender algumas das mais importantes lições da vida longe dos bancos da escola, entre amigos e em meio a boas gargalhadas? Pois isso não só é possível como é também essencial. De acordo com pesquisadores, as brincadeiras, tão comuns na fase da infância, vão muito além da simples diversão e representam grandes lições para as crianças.

“Brincar, na infância, significa humanizar-se. Quando as crianças brincam com iguais, elas aprendem a negociar, criam regras, adquirem responsabilidade, desenvolvem a capacidade física e motora, enfim, conseguem fazer uma catarse de seus problemas e resolver suas dificuldades”, enumera Maria do Carmo Monteiro Kobayashi, pedagoga especializada em formação de educadores na perspectiva lúdica e professora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru.

Para o arte-educador ambiental Guilherme Reis Pereira, também conhecido como Tio Gui, o desenvolvimento das habilidades das crianças é ainda mais aparente nas tradicionais brincadeiras de rua. “Brincando com outras crianças é possível aprender a conviver, a obedecer regras e a competir. É das ruas que surgem os líderes”, acrescenta.

Formar e educar os filhos para a vida adulta sempre foi uma grande preocupação dos pais, mas de acordo com Kobayashi, poucos deles têm dimensão da importância que o ato de brincar tem na vida das crianças.

“Hoje em dia é possível perceber uma preocupação por parte dos adultos em oferecer aos seus filhos brinquedos pedagógicos, mas as coisas não funcionam assim, não dá para fazer um cronograma com o quê a criança deve gostar de brincar. Elas precisam ter contato entre si, criar brincadeiras, inventar, gastar energia. Brinquedos pedagógicos são legais, mas nada se compara às brincadeiras de rua, onde elas extravasam os sentimentos. Brincar perde o sentido quando é o adulto quem dá as regras”, aponta Kobayashi.

Trocar a bola pelo videogame, uma conversa animada entre amigos por um bate papo virtual na Internet e, as ruas pelo conforto das casas têm sido as opções de muitas crianças, que pouco ou nada sabem sobre tradicionais as brincadeiras de rua.

Fatores como o aumento no número de carros circulando pela cidade e a notória falta de tempo dos pais colaboram para o esquecimento de brincadeiras como elástico, queima ou betes, que até cerca de 20 anos faziam a alegrias das crianças nos períodos de férias escolares.

“Brincar na rua se tornou complicado. A loucura urbana somada à falta de tempo dos pais prejudicam a sobrevivência das brincadeiras. É mais cômodo para os pais dar um jogo eletrônico para os filhos, eles o terão em segurança dentro de casa e de quebra não precisarão correr atrás das crianças”, alfineta Pereira.

Kobayashi acrescenta que, para muitos pais, brincar na rua passou a ser sinônimo de perigo. “Atualmente os espaços estão reduzidos. A presença de um adulto se tornou necessária para brincar na rua, e nem sempre eles estão disponíveis ou, quando estão, optam por descansar e deixam os filhos brincando sozinhos”, destaca Kobayashi.

De acordo com a pedagoga, muitas formas de brincar são oferecidas às crianças, mas a mais recomendada são as atividades lúdicas, inventadas por elas mesmas. “Existem brinquedos que os adultos fazem para as crianças, alguns bons outros nem tanto. Também há aqueles em que os adultos criam com as crianças, que seria o esperado. E existe ainda uma terceira forma, a que crianças brincam com crianças, esta sim, é divertidíssima. Quem deve escolher do que brincar são as crianças, isso deve ser feito por livre arbítrio, porque elas sentem prazer e gostam de fazer aquilo. Claro que cuidados são necessários para que elas não se machuquem”, explica.

Pereira ensina que brincar na rua envolve muitos processos importantes. “A criança precisa montar a brincadeira e discutir as regras. A diversão começa daí, é diferente de pegar um brinquedo pronto”, destaca.

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Falta de rua

As influências da falta de tempo, espaço e da tecnologia sobre as crianças podem ser facilmente percebidas: elas se tornam adultos introspectivos e com as habilidades prejudicadas. “Pode parecer cruel, mas crianças que não brincam não se humanizam. Elas têm o crescimento e o desenvolvimento prejudicados, e podem apresentar problemas no futuro quando exigirem delas a capacidade de decisão e negociação”, ressalta Maria do Carmo Monteiro Kobayashi, pedagoga especializada em formação de educadores na perspectiva lúdica e professora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru.

Até mesmo a presença do sol, essencial para que as brincadeiras de rua acontecessem, já faz falta para a nova geração de crianças. “Recentemente foi feita uma pesquisa e descobriu-se que as crianças estão com falta de vitamina D, proveniente do sol. Isso porque elas não saem mais na rua. Queira ou não, quando brincavam fora de casa não tinham este problema”, analisa o arte-educador ambiental Guilherme Reis Pereira, também conhecido como Tio Gui.

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