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Calor no Centro da cidade estressa

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Uma pesquisa feita pelo geógrafo Pedro Moraes Trentini, de Bauru, mostra que o microclima da região central da cidade cria o efeito de “ilha de calor”. Ao comparar o Centro com área de mata ciliar, o estudo confirma que a sensação de calor incomoda a população. Ela tem percepção clara das variações de temperatura e aumento de estresse. Trentini verificou uma diferença média de 2,35ºC a mais no Centro do que na periferia, com dados colhidos em 2005 - quando ainda era estudante universitário na Universidade do Sagrado Coração (USC). A maior diferença é de 3,5%, constatada no dia 5 de junho daquele ano. Ao confrontar com a percepção de calor, 66% das pessoas entrevistadas sentiram a mudança no microclima do Centro para regiões mais afastadas.

O estudante de geografia instalou termômetros em três diferentes locais da cidade entre junho e julho de 2005. Os pontos de monitoramento da temperatura foram a praça Rodrigues de Abreu, no Centro, o Aeroclube de Bauru e o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A predominância do concreto, em relação às áreas verdes, e a cobertura asfáltica são citados como responsáveis pela diferença de temperatura. Além da sensação de calor mais intenso na região central, a falta de áreas verdes e a alta taxa de impermeabilização do solo pela pavimentação provocam a diminuição da umidade do ar e inundações, antigo problema da avenida Nações Unidas sob o viaduto ferroviário.

Trentini concluiu também que a população percebe outras características associadas ao fenômeno: chuvas mais fortes, diferença de umidade do ar entre o Centro e a periferia, problemas de saúde, estresse devido ao calor e pouca cobertura verde no Centro da cidade.

O aumento de temperatura no Centro é associado ao estresse por 77% das pessoas entrevistadas.

O estudante de geografia também avaliou que o Centro sempre apresentou temperaturas mais elevadas em relação à periferia. Nos dias nublados, com insolação quase nula, o efeito foi menos intenso, com a radiação incidida na cidade, que aquece o ar, caracterizando a “ilha de calor”.

O estudo recupera as discussões de urbanização desorganizada de Bauru e a necessidade de intervenção de políticas públicas para a ocupação urbana.

Trentini concluiu que os resultados das entrevistas confirmam os dados das medidas dos termômetros, pois todas as questões possuíam indícios de características do fenômeno: diferença térmica do Centro para a periferia, ar seco, diferença térmica urbana rural, população com elevado grau de percepção térmica e conhecimento do ambiente”, destacou o estudante de geografia.

A pesquisa de iniciação científica foi orientada por José Carlos Rodrigues Rocha, quando Trentini cursava geografia na Universidade do Sagrado Coração (USC).

Ilhas

Matérias do JC nos Bairros, em 2005, já abordavam a questão da formação de “ilha de calor” e “ilhas de conforto”, época de efervescência de propostas para o Plano Diretor. Entre as reportagens citadas no trabalho do estudante de geogra fia Pedro Moraes Trentini (em 2005) está um depoimento ao JC do então secretário municipal de Meio Ambiente, Carlos Barbieri. O titular da Semma comentou que para se ter um conforto ambiental, a área mínima de cobertura vegetal deveria ser de 20%, índice só registrado em alguns municípios mais desenvolvidos no Sul do País. “E os primeiros indicativos de um diagnóstico que está sendo feito é de que a cidade tem apenas 6%”, revelou Barbieri na época. Na mesma matéria, o então secretário do Meio Ambiente de Bauru atribuiu o déficit de cobertura vegetal na cidade à falta de planejamento ambiental.

A questão do microclima de pontos isolados da cidade também já era estudado pelo Núcleo de Conforto Ambiental (Nucam) da Unesp Bauru. Dentre as praças analisadas, o melhor desempenho térmico foi observado no Bosque da Comunidade. Nas diversas medições realizadas, a área chegou a apresentar diferença de até 3,1ºC no período da tarde, entre sua área interna, caracterizada por sombreamento denso e entorno imediato (calçada). Com base em consulta aos usuários também ficou comprovado que o microclima mais amenos do bosque contribuiam para o melhor conforto térmico dos frequentadores.

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