Polícia

‘Não há solução milagrosa’, afirma especialista em segurança pública

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Especialista em segurança pública, criador do método de tiro defensivo que leva seu nome, que é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e adotado pela maioria das secretarias de segurança do Brasil, o coronel da reserva Nilson Giraldi afirma que combater o tráfico exige envolvimento, participação e investimento tanto da família quando do Estado. “Não há solução milagrosa a não ser cumprir passo a passo uma lista extensa de itens. O caminho é difícil e longo”, adianta. O primeiro passo é fiscalização eficaz das fronteiras, dos portos, dos aeroportos, por onde a droga entra.

“E essa é uma função das Forças Armadas e da Polícia Federal. Atualmente, e eu posso dizer porque viajo bastante, se cruza a fronteira do Brasil com a maior facilidade, sem revista”, afirma. O segundo passo é prender o traficante e produzir provas o suficiente para mantê-lo atrás das grades. “A polícia precisa trabalhar com inteligência policial, com observação”, orienta.

O terceiro passo é ter um sistema Judiciário mais ágil e leis que obriguem o traficante a cumprir toda a sua pena. “Enquanto no mundo a média é de um juiz para cada 8 mil pessoas, no Brasil é um juiz para 28 mil pessoas. A consequência é demora na condenação. E quando uma pessoa é condenada por tráfico, já consegue saída temporária, regime semi-aberto, assim que cumpre um sexto da pena. Volta para a rua e retoma o tráfico”, analisa.

O quarto passo é recuperar o dependente químico, quem faz a roda do tráfico girar. “A dependência química é uma doença, uma síndrome como diabetes ou outra qualquer. E como tal, precisa de tratamento, de internação. Estudos indicam seis meses de internação e com acompanhamento médico, psicológico. Mas a doença não tem cura, só controle. E nisso que tem de se investir. O problema é que o Estado não oferta vagas o suficiente para atender os dependentes”, explica.

Mas, antes de tudo, frisa Giraldi, o dependente químico precisa querer se tratar. “E, para isso, precisa do apoio da família. Os pais não podem nunca desistir do filho. Quando ele estiver sob o efeito da droga, não é o filho, mas sim a droga que está agindo. Não pode discutir, agredir. Quando o efeito passar, os pais têm de estar com um sorriso no rosto e dizer “eu te amo, meu filho, mas não concordo com o que você está fazendo!” E oferecer tratamento”, ensina.

A recuperação do dependente químico, ressalta, não é fácil. Além de querer se recuperar, do apoio da família, de tratamento adequado, precisa ter espiritualidade, trabalho, fazer atividade física. E, depois, da internação, precisa manter-se abstêmio. Para isso, não pode freqüentar os lugares de antes, ter as amizades de antes”, enumera. “Mesmo assim ocorrem recaídas. O importante, é não deixar de tentar novamente”, aponta.

O quinto passo na luta contra as drogas é a prevenção. E Giraldi considera esta palavra em toda a sua dimensão. “Desde campanha educativa na televisão, na imprensa de maneira geral, o que não ocorre, ao mais importante: o amor da família. Pai que tem tempo para o filho, que ama o filho, que mostra este amor com elogio, com sorriso, com participação em sua vida; que respeita o filho, que brinca com ele de rolar no chão, de sentir seu cheiro e vice-versa; que tem paciência, insistência e persistência na educação, mas que sabe impor regras e limites; que vigia, mas sem controlar a vida do filho; que participa da educação do filho, que conhece seus amigos, não tem filho com personalidade deturpada, violenta. Não terá um filho dependente químico ou criminoso”, afirma.

Mas para dificultar, lembra Giraldi, há o fator da pré-disposição do organismo em tornar-se dependente. “Isso explica porque muitos jovens, na época da faculdade, experimentam droga por curiosidade, mas não continuam a usá-la. É uma questão que nem a ciência encontrou explicação”, frisa. “O que temos são indícios do que leva à esta pré-disposição: uma sociedade materialista, individualista, consumista, exibicionista e imediatista. E contra isso não há nada além do que amor da família e educação”, ou seja, tudo o que está no quinto passo.

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