Meu primo jornalista me ligou.
- Primo, vou mandar o meu motorista do Palácio, o Maçaneta, pegar você. De casa iremos à residência do governador, ao Palácio e de lá iremos de avião ao Rio de Janeiro falar com Carlos Lacerda.
- Primo, eu tenho que fazer um relatório para a presidência do banco (eu era diretor) sobre a situação econômica nacional. Não fosse isso eu iria.
- Pode vir, quando você chegar seu relatório estará pronto. É só você assinar e entregar na presidência do banco amanhã.
Eu confiava muito na alta capacidade de meu primo.
- Sendo assim, já estou indo.
Da casa de meu primo fomos para a residência do governador. Chegou o governador.
- Bom dia, hoje vocês irão ao Rio conversar com o Lacerda. Eu gostei da ideia de seu primo ir junto porque ele é advogado. O mordomo pediu licença e interrompeu.
- O embaixador já chegou.
- Mande ele entrar, disse o governador.
- Excelência, o senhor está sem camisa e de cueca.
- E daí, disse o governador. Será que ele nunca ficou sem camisa e não usa cueca? O embaixador entrou acompanhado de um secretário e após nos cumprimentar começou a conversar com o governador.
Meu primo me falou baixinho:
- Vamos dar no pé porque esse papo furado vai longe.
Nos despedimos de todos e entramos no carro. Meu primo falou:
- Primo, me empresta a sua caneta que eu vou assinar essas 15 nomeações.
- Você tem poderes para assinar? Entregando-lhe a caneta.
- Eu não tenho poderes, mas eu sei fazer a assinatura do governador. E assinou todos.
Passamos no palácio, entregamos as 15 nomeações e fomos para o aeroporto.
No caminho o Maçaneta disse:
- Doutor, eu não vou, porque eu tenho medo de avião, nunca andei.
- Não, você fica.
Chegamos no Rio, fomos recebidos por Carlos Lacerda, conversamos muito e meu primo disse:
- Lacerda, você precisa baixar a voltagem de 220 para 110, você ataca até a sua sombra.
- É preciso agir muito, só assim seremos vencedores.
- Até mais ver, disse meu primo e partimos.
Blasco Peres Rego - escritor