“Existem mortos que não enterramos, e sim semeamos”. - Dom Helder Câmara
“Seria possível duplicar o trabalho que a Pastoral vem fazendo com o apoio do Ministério da Saúde? Nós duplicaríamos imediatamente os recursos, bastaria apresentarem um plano de expansão. Acho a ação da Pastoral extraordinária e fundamental para derrubarmos ainda mais a mortalidade infantil no Brasil.” Foi mais ou menos o que disse aos dois visitantes. Eu havia assumido o cargo de ministro da Saúde fazia poucos dias e estava atendendo a um pedido de audiência do bispo Dom Aloysio Penna, responsável pela área da criança na CNBB, e da médica Zilda Arns, coordenadora da Pastoral da Criança. Eles aceitaram o desafio na hora.
Dali em diante, Zilda Arns tornou-se uma parceira de todos os momentos. Recorri a ela muitas vezes, como no caso em que o seu apoio foi fundamental para que conseguíssemos aprovar o Projeto de Emenda Constitucional nº 29, em 2000/01, que definia recursos orçamentários mínimos para a Saúde, nas três esferas de governo.
Ela tinha formação científica e era cristã fervorosa. Com a sua crença, tornou mais humana a sua ciência; com a sua ciência, deu impressionante dimensão prática à sua crença. Sempre evidenciou a importância de unir o Brasil num propósito, em vez de dividi-lo. Era uma mulher serena nos gestos, no olhar, no sorriso fácil, na delicadeza com que tratava a todos, em qualquer circunstância, e na tolerância em relação às ideias das quais divergia e às pessoas que não admirava. Ao mesmo tempo, era disciplinada, organizada e sistemática no trabalho, docemente insistente na defesa de suas crenças e propostas. Não brigava, procurava persuadir.
Certa vez, quando intensificamos, no Ministério da Saúde, a distribuição de anticoncepcionais e preservativos, Zilda veio me ver. Mostrou-me uma espécie de terço que, à primeira vista, não identifiquei. Finalmente, depois de alguns rodeios, ela me explicou: era um expediente de custo mínimo, para as mulheres lembrarem seus dias de fertilidade e controlarem suas relações sexuais, evitando gravidez indesejada. Doutora Zilda fazia muito mais com muito menos.
Em 2001, por ideia de um amigo que a admirava, deflagrei uma campanha para a concessão do Prêmio Nobel da Paz à doutora Zilda Arns. Ficou claro o reconhecimento que seu trabalho e seu exemplo mereciam, no Brasil e em todo o mundo, pela extensão e apoios que a sua indicação recebeu. Aliás, ela sempre deu prioridade à transmissão e à réplica da experiência brasileira da Pastoral da Criança nos países pobres da América Latina, da Ásia e da África. Foi nessa missão que ela estava no Haiti, o país mais pobre das Américas, onde morreu. Viva doutora Zilda, na sua obra, no seu exemplo e nas milhares e milhares de crianças cujas vidas ajudou a salvar e a construir.
O autor, José Serra, é governador do Estado de São Paulo