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O Haiti de todos nós

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os homens e as mulheres que na Capital do Haiti fazem barricadas nas ruas com os cadáveres dos filhos, pais e amigos, só querem lembrar ao mundo que a vida humana clama por proteção. Em “Ensaio sobre a cegueira” Saramago focava justamente o extremo da indignação a que as pessoas são levadas em situações-limite. O povo do país mais pobre das Américas, arrasado por lutas internas, pelos furacões e agora pelo terremoto, nem tem tempo para chorar os seus mortos e sequer forças para enterrá-los. Seria o caso de repetir como Hannah Arendt sobre o Holocausto: “Aonde estava Deus nessa hora?”

Os que se salvaram, para se conservarem vivos agora roubam, saqueiam e matam, se for preciso. O instinto de sobrevivência presente em todos os animais os introduzem à lei do mais forte. A ONU lança um apelo desesperado ao mundo para reunir 550 milhões de dólares para salvar o povo haitiano. Se o mesmo dinheiro tivesse sido investido em projetos de moradias resistentes aos tremores de terra, em escolas, em empreendedorismo, em saúde e educação, as imagens a que assistimos estarrecidos pela televisão poderiam ser menos dramáticas. O Japão foi destruído muitas vezes por terremotos, bombas atômicas e a guerra. Ressurgiu cada vez mais forte por causa da sua cultura milenar aliada à união, à disciplina e à educação.

Antes de morrer, aos 37 anos, Jacques Roumain, filho de um presidente da República, fundador do Partido Comunista do Haiti e o maior intérprete da alma haitiana escreveu um livro onde ele se lamenta, sem perder a esperança: “Somos sem sorte, é verdade. Somos miseráveis, é verdade. Você sabe por quê, irmão? Por causa de nossa ignorância. Mas ainda não conhecemos a força que somos. Algum dia, nós nos levantaremos de um lado a outro do país e convocaremos uma assembléia geral dos governadores do orvalho, sairemos todos da pobreza e plantaremos uma nova vida”. A profecia de 1944 ainda não se realizou. O Haiti foi uma das primeiras e mais lucrativas colônias francesas. No entanto, há séculos está mergulhado na miséria e no caos político e social. A ilha Hispaniola foi descoberta por Colombo. É dividida pelo Haiti e a República Dominicana. Esta consegue viver da indústria do turismo com o aproveitamento da magia do mar azul-turquesa do Caribe. Hotéis de luxo em Punta Cana, marinas repletas de iates de milionários americanos e cassinos carreiam divisas para os dominicanos. Lá existe até um laboratório da Embrapa e muitos brasileiros trabalhando para desenvolver o agronegócio. Soldados brasileiros estiveram na República Dominicana em 1965 para pacificar o país imerso numa guerra civil. Teve seus ditadores sanguinários, como Rafael Trujillo, que ficou no poder de 1930 até 1961, quando foi morto. Hoje, parece que os dominicanos encontraram o caminho do desenvolvimento. Inclusive têm que conter a imigração não desejada dos vizinhos haitianos.

O Haiti foi conquistado pela França no século 17. Os colonizadores importaram 700 mil escravos negros para trabalhar nas lavouras de cana-de-acúcar. O escravo Toussaint-Louverture, uma espécie de Spartacus negro rebelou-se contra as tropas napoleônicas em 1802. Os franceses vencidos traíram o compromisso de paz e prenderam Louverture. Morreu na prisão em Paris, mas os seguidores prosseguiram na luta até que em 1804 os haitianos conseguiram a independência. Foi o segundo país da América a se tornar formalmente autônomo: o primeiro foram os Estados Unidos. Surgia a primeira e única República Negra do mundo.Mas a França exigiu uma indenização milionária pela liberdade. Foi o primeiro golpe na nova república, que viu sua economia afundar. De lá para cá, o Haiti passou por golpes de Estado, revoluções, repressão, uma ocupação americana, ditaduras sanguinárias, furacões e toda a sorte de mazelas possíveis. É irônico o presidente Nicolas Sarkozy pedir que Brasil, Canadá e EUA se unam para socorrer os haitianos.No final da década de 1980 a França abriu suas fronteiras para o ex-ditador Baby Doc se exilar na Côte d´Azur - deixando para trás a miséria do Haiti e gastando tranqüilamente os milhões que roubou durante anos de poder, desde o seu pai Papa Doc. O Brasil, que nunca se aproveitou do Haiti, já gastou 700 milhões de reais com a presença do Exército e ajuda a dar um pouco de organização e esperança em meio ao caos. A França vai ter que fazer muito em ajuda humanitária e trabalho para reerguer dos escombros um país que explorou durante séculos.

Perde o Brasil os seus soldados vitimados pelo terremoto e a dra. Zilda Arns. Quem sabe esses mártires sirvam para despertar os remorsos e a solidariedade do mundo. O Haiti também é aqui, em cada encosta dos morros onde as tragédias se repetem todo verão. Não temos terremotos e tsunamis, é verdade. Só temos que nos livrar dos maus políticos.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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