São José do Rio Preto - Rio Preto amanheceu ontem debaixo d’água. Duas horas de chuva intensa na madrugada, a maior dos últimos 50 anos, causaram duas mortes e um prejuízo estimado de R$ 40 milhões.
O bombeiro Luciano Rodrigues de Souza, 24 anos, tentava salvar um homem no canteiro central da avenida Bady Bassitt quando foi engolido pela correnteza. Já o aposentado Lucas de Cândio, 75 anos, morreu afogado dentro do carro. A última morte provocada por enchente na cidade ocorreu há 11 anos.
A força da água foi tão grande que arrancou pedaços de calçada e asfalto, arrastou placas e semáforos. Na avenida José Munia, foi aberta uma cratera de 20 metros de diâmetro. A água invadiu supermercados, bancos, escolas, unidades de saúde e lojas de veículos. Duas bancas de jornais foram arrastadas pela correnteza.
Choveu 112,2 milímetros em apenas duas horas na cidade, entre 3h e 5h. O índice equivale a 112 litros despejados em apenas um metro quadrado, e soma quase a metade da chuva acumulada no mês de janeiro (288 milímetros). Segundo o prefeito Valdomiro Lopes, é o maior volume d’água em 50 anos na cidade. “Precisamos reconstruir Rio Preto”, afirmou.
Além das mortes, o Corpo de Bombeiros atendeu 45 pessoas. As vítimas estavam ilhadas ou em veículos arrastados pela água. O bombeiro Luciano Rodrigues de Souza morreu ao tentar salvar um homem, que se encontrava no canteiro central da avenida Bady Bassitt, perto da rua Cila, Imperial. Os colegas não esconderam a tristeza pela morte do companheiro e trabalharam abatidos. O tenente-coronel Leandro Antônio Graton diz que Souza pode ter sido atingido, durante o salvamento, por um objeto, como banca de jornal, caçamba ou mesmo um veículo. Tudo isso foi levado pela água. “Ele usava todos os equipamentos de segurança.” Uma sindicância vai apurar o caso.
O bombeiro ficou submerso por 30 minutos e foi localizado na rua Martinho Gonçalves, com parada cardiorrespiratória. A equipe médica do hospital tentou reanimá-lo por uma hora, mas ele não resistiu.
O aposentado Lucas de Cândio transitava com um Gol e não teve tempo de sair do veículo, atingido pela correnteza. Morreu no local. O aposentado levantou às 3h, como fazia toda segunda, quarta e sexta-feira, para passar por hemodiálise.
Muito abalada, Anita de Cândio contou que o marido fez café e se despediu. “Infelizmente, aconteceu essa tragédia. É uma tristeza grande.” A família morava em José Bonifácio e se mudou para Rio Preto há dez anos quando um dos rins do aposentado começou a falhar.
Ao todo, 13 pontos foram castigados pela enxurrada, entre eles as avenidas Bady Bassitt, Alberto Andaló e Philadelpho Gouveia Neto, além da Rodoviária e da Estação de Tratamento de Água (ETA).
O caos se repetiu no trânsito. Na tentativa de ordenar o trânsito, cerca de 60 policiais militares que estavam de folga e no atendimento interno foram remanejados para as ruas. Na Rodoviária, o piso inferior teve de ser interditado pela manhã para que o barro fosse removido do local. Para remover toda a lama, foram necessários oito caminhões-pipas.
Por conta do estrago, o prefeito Valdomiro Lopes (PSB) decretou estado de calamidade pública. O objetivo, segundo ele, é conseguir verba dos governos federal e estadual - no início da noite de ontem ele aguardava telefonema do governador José Serra para negociar o repasse de dinheiro.
Para amenizar o impacto das enchentes, o prefeito aguarda a liberação da verba do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), emperrada há seis meses, para o alargamento da calha do rio Preto. Para Valdomiro, porém, nenhuma obra antienchente evitaria os estragos causados pela forte chuva de ontem.
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Sem água
São José do Rio Preto - Pelo menos 120 mil moradores ficaram sem água depois que a Estação de Tratamento de Água (ETA) foi inundada durante o temporal de ontem. Sete bombas que distribuem a água para Rio Preto foram queimadas.
Bairros da área central foram afetados. A assessoria de imprensa da prefeitura acredita, porém, que o número de pessoas sem água pode ser maior, já que o 0800 do Semae não funcionou durante todo o dia de ontem.
Segundo o superintendente do Serviço Municipal de Água e Esgoto (Semae), Antônio Tavares Ranzani, o abastecimento só deve começar a ser normalizado amanhã.
A água invadiu a estação por volta das 4h, e atingiu mais de dois metros de altura. Além das sete bombas, o painel de controle também parou de funcionar. De acordo com o gerente de operações do Semae, Alessandro Toscano, serão necessários cerca de R$ 2 milhões para consertar os equipamentos.
O prejuízo, no entanto, não se resumiu ao poder público. “Nem dá para tirar a lama de frente da loja. O jeito vai ser contratar um caminhão-pipa para ver se consigo pelo menos voltar a abrir as portas da lanchonete”, conta o comerciante Maurílio Campos Marques, 32 anos, que estava com as torneiras secas na manhã de ontem.
Além dos funcionários da autarquia, a prefeitura contratou uma empresa terceirizada para trabalhar nas ruas de Rio Preto e dar suporte nos pontos mais críticos. Ao todo, 17 equipes estão nas ruas e avenidas para recuperar os pontos de retorno de esgoto. Outras duas equipes do Semae, que trabalharam durante a madrugada e manhã de ontem, estão em estado de alerta e podem retornar às atividades a qualquer possibilidade de chuva.
Por conta dos prejuízos, a prefeitura efetuou uma compra emergencial de sopradores. O equipamento será usado para secar as bombas das caixas-d’água e tentar identificar se os motores foram queimados para depois ser efetuada a troca.
Devido ao temporal, 18 bairros ficaram cinco horas e quarenta minutos sem energia elétrica ontem, segundo a CPFL Paulista.