Tribuna do Leitor

Mudanças


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O ano que passou foi de muitas mudanças em minha vida. Encontrei meu companheiro e juntos encontramos o lugar da vida inteira, o lugar dos nossos sonhos. Um lugar lindo, abençoado, cercado pela natureza, longe de tudo, longe de todos, perto dos que amamos.

Aqui não temos tevê. Também não temos rádio, celular e até nosso velho e querido amigo Jornal da Cidade não chega. Vivemos em um mundo onde o único contato é uma linha telefônica sensível à ventanias e uma Internet discada, e - acreditem os jovens - não é fácil viver sem a banda larga.

Aqui vivemos livres e salvos das torrentes de tragédias e tormentos do dia-a-dia na cidade. Para dois dependentes do sistema foi uma arriscada aposta que deu certo. Vivemos em paz, cercados daqueles que realmente nos amam, que transpõem obstáculos para chegar onde nos escondemos e partilhar conosco.

Certamente, esta vida distante do mundo globalizado tem seus prós e contras. Ao mesmo tempo em que nos apartamos do tormento da vida moderna, também nos privamos de viver as alegrias e de nos solidarizar com as mazelas da vida humana.

Foi em um dia de extrema felicidade que chegou a triste notícia do terremoto no Haiti e a perda inestimável de tantos seres iluminados, dentre eles, Zilda Arns. Uma terrível tempestade mostrou a fragilidade de nosso telhado. Nunca vi tantas goteiras em meus 30 anos. Fiquei nervosa, irritada. O sal acabou e não podíamos ir até a venda, pois a chuva caía forte. A piscina recém-tratada era inundada por folhas. Raios. Pausa forçada na nossa frágil felicidade.

Foi minha mãe que fez a revelação em tom consternado, porém inocente. Eu tentava conter a água que escorria pelo telhado e não sabia da verdadeira tragédia. Isto foi num sábado. Alguns dias depois do ocorrido.

Eu havia estado na cidade. Fui ao Centro de Bauru no dia anterior à notícia chegar ao nosso paraíso. Falei com pessoas nas lojas, nas ruas. A vida estava seguindo seu curso. Nada de anormal. Como era possível? Nenhum sinal me alertou para a catástrofe que aconteceu. As pessoas seguiam seus destinos, seus cotidianos.

A água foi diminuindo lá fora e aumentando aqui dentro. No meu peito a enxurrada inundou tudo e vazou pelos meus olhos. Eu lembrei dela, que percorria o sertão e a caatinga, cuidando das mãezinhas e de seus bebês subnutridos, ensinando como salvá-los, como mantê-los vivos. Ela fez de seus filhos os filhos dos outros. Ela que estava numa igreja fazendo aquilo que sempre fez - cuidando dos que precisavam - ela, ela não estava mais entre nós.

Em um país cheio de dores, fome, guerra, doenças. Em um país arrasado pela ganância, um terremoto leva tantas vidas, dentre estas vidas aquelas que optaram por estar lá, naquele lugar de onde tantos fugiriam. Eles estavam lá por amor àqueles que lhes eram desconhecidos. E ela era um deles. Ela estava lá por amor à gente (gente, carne, sangue, dor, alegria, vida, que mata, que morre, que ri e chora, que ama e odeia, seres humanos).

Senti vergonha pelas minhas lamúrias. Lamúrias pela piscina cheia de folhas. Pelo feriado sem sol. Pelo engarrafamento que irrita. Pelos morcegos no telhado. Pelo carro que virou moto. Pelo preço da faculdade. Pela fila no banco etc etc etc...

Chorei na minha infinita ignorância perguntando por que tanta gente ruim continua vivinha para dar continuidade aos seus planos de maldade e egoísmo enquanto gente boa morre assim, de uma só vez, aos montes.

Mas logo em seguida, com minha mãe ao lado, percebi, olhando a chuva que ainda caía, agora mansa e morna, que Ele tem seus desígnios, estranhos, em linhas tortas e caracteres desconhecidos. 

Não quero tentar dar alento àqueles que perderam seus entes queridos, pois não me vejo digna disso. Mas sei que eles morreram da maneira que escolheram viver: servindo a um propósito muito maior, que nos passa desapercebido em nossas vidas mesquinhas e burguesas. Vi, assim, que não só meu telhado, mas toda a casa de minha alma era frágil.  

Assim, peço que sejam recebidos em braços amorosos. Que esta seja a forma encontrada para que as dores sejam aliviadas e eles possam continuar trabalhando em prol dos que necessitam. Que sirva como lente para que nossos olhos cegos vejam além do véu de nossas mesquinharias.  

Meus pêsames às famílias. Sintam orgulho dos seus que se foram no Haiti. E por Zilda... não sei o que dizer. Não sei como terminar esta carta. Só posso dizer, obrigada pelas lições que ensinou até o último instante de sua vida entre nós.

Susan Lopes - atriz

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