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Gesto pela dignidade humana

Merheg Cachum
| Tempo de leitura: 3 min

A tragédia no Haiti expõe de maneira contundente todas as feridas do subdesenvolvimento. Nesta nação carente de tudo, o terremoto teve consequências muito mais graves, não só em termos de vidas ceifadas, como também no tocante à infraestrutura, prédios do Estado e empresariais, moradias e logradouros urbanos. A fragilidade das edificações e sua inadequação a intempéries e cataclismos, frequentes no Caribe, é, contudo, apenas uma das tristes vertentes do drama que assola os mais de 8 milhões de habitantes do país.

Como se pode observar na mídia, as condições de segurança estão ficando cada vez mais graves na Capital. É lamentável constatar o aumento de casos de saques, linchamentos e execuções sumárias. Além do terremoto, haitianos estão matando seus irmãos e reorganizando as gangues do passado recente. É preciso conter tudo isso imediatamente. Não se pode perder, em meio à tragédia, os avanços conquistados nos últimos anos em termos de pacificação social.

Por tudo isso, é um comportamento esdrúxulo tratar a questão com abordagem política. Trata-se de um episódio que merece e justifica foco no campo absolutamente humanitário. Tampouco se admite transformar o caos do Haiti em bandeira ideológica, retórica nacionalista, afirmação de lideranças ou dividendos políticos. Entendida tal premissa, é lamentável, por exemplo, a bravata do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que continua se arrogando o papel, por ninguém reconhecido, de herdeiro de Bolívar. Ele está sendo oportunista ao acusar injustamente os Estados Unidos de tentarem aproveitar a situação para ampliar domínios no Haiti. Ora, nada mais absurdo, quando se observa que norte-americanos e o governo brasileiro têm feito o máximo esforço no sentido de viabilizar a melhor e mais rápida ajuda possível, numa circunstância de muita dificuldade, inclusive logística.

A palavra de ordem é solidariedade, e não política! Os brasileiros, felizmente, vêm dando um grande exemplo nesse sentido. Nossa tradicional fraternidade está entrando, de modo muito marcante, na história do Haiti, incluindo a presença, há alguns anos, de 1.500 soldados, alguns deles mortos no cumprimento do dever, o jogo da Seleção, a ajuda financeira e material agora ofertada.

Dra. Zilda Arns, esta grande brasileira, que também se despediu da vida quando ajudava ao próximo no Haiti, é um imenso exemplo da postura, de pessoas físicas, jurídicas e governos que o país caribenho necessita neste momento. Lembro-me com respeito, admiração e emoção da presença de Zilda Arns na Feira BrasilPlast, em São Paulo, no ano de 2001. Na oportunidade, numerosas empresas do setor de transformação de plásticos doaram à Pastoral da Criança, por ela fundada, milhares de colheres-medida para administração do soro caseiro, caixas d’agua, bolas, mochilas, banheiras, brinquedos e seringas.

Na ocasião, em primoroso discurso, ela ressaltou “a importância das iniciativas empresariais na área social” e falou sobre o trabalho da Pastoral, que “conseguiu reduzir a mortalidade infantil nos locais onde atua a menos da metade da média nacional”.  Sábias palavras, nobres propósitos, eficazes resultados! As ações dessa inesquecível brasileira evidenciam que a responsabilidade social, tão premente no drama do Haiti, não tem ideologia e tampouco intenções que não sejam a valorização da vida. É só isso que o Haiti precisa! É só isso que o mundo necessita para extinguir o subdesenvolvimento, esse monstro persistente que continua alimentando guerras e caos social e conspirando contra a dignidade dos seres humanos!

O autor, Merheg Cachum, é presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico e do Sindicato da Indústria do Plástico

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