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Bauru, cidade ingovernável

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Não pense que vamos criticar a administração do Rodrigo Agostinho, moço que admiramos e prezamos desde quando, ainda como estudante, nos ajudava ministrando cursos de ecologia aos alunos da Faculdade de Ciências Econômicas. Também não vamos criticar ex-prefeitos. A frase do título é a opinião de um respeitado executivo, de outra cidade, mas que conhece bem Bauru, dita numa conversa sobre os problemas enfrentados pela administração municipal. Segundo ele, Bauru é ingovernável porque cresce mais do que os recursos de que dispõe. Assim, nem sempre pode resolver um problema totalmente e, quando resolve um, outros já faz tempo que estão pedindo solução. É como apagar incêndios, ficando sempre uma brasa para reativá-lo, ao mesmo tempo em que as labaredas estão ardendo em outro lugar.

Embora achando que a palavra ingovernável é um tanto forte, infelizmente os fatos estão aí, há décadas, mostrando um fundo de verdade. Como poderíamos responder a estas perguntas: Bauru consegue conservar em bom estado as suas ruas e avenidas? Consegue conservar e ajardinar as suas praças? Consegue manter a cidade limpa? Consegue resolver o problema de um pequeno viaduto, que liga o centro à vila Falcão, sem falar no grande viaduto, que transpõe as ferrovias? Conseguirá revitalizar o Centro se efetivamente ficar com o prédio da estação, conforme aquele belíssimo projeto que foi divulgado? Quando conseguirá tratar o seu esgoto? Consegue evitar que as mães, todo início de ano, precisem pernoitar na fila para conseguir vagas em creches e escolas de educação infantil? Consegue ter médicos em número adequado nos serviços de saúde?

Seria bom que as respostas pudessem ser positivas, mas esses problemas estão aí desafiando cada administração. É de se imaginar a angústia do prefeito e seus auxiliares querendo resolvê-los e sendo barrados por insuficiência de verbas e por equipamentos em falta ou quebrados, sem poder consertá-los ou substituí-los. A distribuição tributária é injusta, aquinhoando os municípios pela geração de tributos e não pelas suas necessidades. Cidades como Bauru, que se transformam em pólos regionais, passam a receber muitos migrantes, estudantes e pessoas em busca de assistência médica, o que cria uma demanda de serviços que cresce mais do que a sua arrecadação. Enquanto isso, cidades que possuem grandes indústrias têm receita que permite até algumas extravagâncias administrativas, como o famoso “palácio de cristal”, apelido do paço municipal de São Bernardo do Campo, no boom industrial de São Paulo.

A alternativa, sem uma reforma tributária que favoreça os municípios, é a participação do governo do Estado e da União na solução dos problemas municipais. Mas uma participação efetiva e contínua, e não esporádica, como uma avenida aqui, uma escola ali. Bauru, infelizmente, não tem recebido a atenção a que tem direito pelo que representa para o Estado e para o Brasil, como lembrou o diretor do JC, Renato Zaiden, em palestra no Rotary Club. Como este ano é um ano de eleições, não faltarão os candidatos que virão pescar votos, prometendo interceder junto a secretários e ministros para ajudar a cidade. E o pior é que conseguem cabos eleitorais, que por alguma vantagem pessoal ou iludidos em boa fé, os ajudam a retirar os votos que poderiam eleger candidatos da cidade. Não faltarão, também, políticos locais que dizem ter prestígio junto ao alto escalão estadual ou federal e podem ajudar muito, confundindo prestígio político com simples relacionamento de cabo eleitoral. É só balela. Passado o tempo resta aquilo que o filósofo da comunicação Marshall McLuhan costumava dizer: “Quando tudo estiver dito e feito, muito mais foi dito do que feito.”

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

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