Se engana quem pensa que a vida de um cachorro se resume a sombra e água fresca. Erro maior ainda comete quem acredita que o trabalho de um policial do Canil da Polícia Militar se resume a brincadeiras com os cães.
Com uma rotina agitada e repleta de compromissos, a latição, que pode ser entendida como alegria ou reclamação por parte dos animais, começa logo cedo, quando os militares iniciam as atividades, e dificilmente cessa durante todo o dia.
A primeira tarefa é fazer a limpeza do canil e a higienização dos cachorros, trabalho que demanda cerca de duas horas. “Primeiro lavamos todos os compartimentos, incluindo o local onde é colocada a alimentação. Depois fazemos um exame geral, quando observamos cada detalhe relacionado à saúde do nosso companheiro de serviço, como a pelagem, os olhos, a temperatura, etc”, explica o soldado policial militar João Batista Rodrigues Neto.
A jornada de um policial é de 12 horas de atividade por 36 horas de descanso, o que significa que ao término da primeira tarefa ainda restam 10 horas para o encerramento do expediente.
O treinamento dos cães, que tem duração média de quatro horas, é o segundo dever da lista, e é aí que acaba a folga dos animais. “Quando eles são novinhos usamos brinquedos para adestrá-los. Se eles conseguem cumprir as ordens dadas, recebem como premiação muito carinho e incentivo, caso contrário, deixamos transparecer que estamos decepcionados com a falha”, aponta Rodrigues Neto.
A premiação e a punição são as mesmas durante todo o tempo de trabalho do cão, apenas o grau de dificuldade do treinamento aumenta: brinquedos saem de cena e são substituídos por elementos e circunstâncias reais, como o uso de entorpecentes e a simulação de abordagens.
O patrulhamento nos bairros ou eventos, e a execução de tarefas como mandados de reintegração de posse ou busca de entorpecentes, são as tarefas que ocupam as últimas seis horas do expediente de mais um dia de parceria entre o homem e seu melhor amigo.
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Equipe de especialistas
A equipe de cães do Canil da Polícia Militar de Bauru sé dividida em três especialidades: policial, faro de drogas e armamentos e faro investigativo. As aptidões são desenvolvidas em treinamentos realizados ao longo da semana. Confira a seguir:
Policial
Realizar o trabalho de guarda e defesa é a função dos chamados cães policiais. No Canil da Polícia Militar de Bauru, 11 animais são treinados especialmente para cumprir esta tarefa, que geralmente é executada em locais onde há uma grande aglomeração de pessoas.
São cães leais, preparados para obedecer desde as ordens mais simples, como sentar ou deitar, até as mais complexas, como aguardar autorização para atacar.
“Inibir é a principal função de cachorros com especialidade policial. A presença do animal impõe medo no indivíduo e diminui muito as chances de reação”, explica subtenente policial militar Eliete Aparecida Tavares Ramos, responsável pelo Canil da Polícia Militar de Bauru.
Faro de drogas e armamentos
Sete dos cães do Canil da Polícia Militar de Bauru são especializados na localização de entorpecentes, sendo que um deles está sendo treinado para localizar armamentos e outros dois exercem também a função de policial.
O adestramento de animais especializados neste tipo de busca geralmente demanda mais tempo e atenção por parte do policial adestrador.
“Os brincalhões e ativos são os animais que têm pré-disposição para realizar este tipo de tarefa. Eles são ensinados a encontrar o entorpecente e apontar onde está. Quando encontram se sentam ou cavocam próximo ao local”, explica a subtenente responsável pelo Canil.
Faro investigativo
Um bloodhound chamado Arnon é o único cachorro do Canil da Polícia Militar de Bauru que está em fase de treinamento para desempenhar o papel de busca e salvamento de pessoas.
O motivo da escassez desta categoria é facilmente justificado: o treinamento é bastante complexo e exige um faro apuradíssimo, característica que eleva o preço do cão.
“O bloodhound, ou cão de sangue, como a raça é conhecida, custa cerca de R$ 2 mil e é o melhor na localização de pessoas. Ele é capaz de reconhecer o procurado pelo suor, sangue e até mesmo pela saliva. Nos Estados Unidos, eles estão sendo usados como prova nos tribunais”, explica o soldado policial militar João Batista Rodrigues Neto.
A capacidade de faro do bloodhound se deve as 300 milhões de células olfativas que ele possui, contra 250 milhões do labrador e 200 milhões do pastor.
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Para atuar, policial passa por cursos em São Paulo
“O policial que deseja trabalhar com animais, sejam eles cães ou cavalos, precisa, acima de tudo, ser voluntário”, é desta forma que o capitão Flávio Jin Kitazume define o espírito que os militares devem ter para integrar o Canil da Polícia Militar ou o Destacamento Montado de Bauru.
De acordo com ele, a palavra voluntário é utilizada porque na rotina de trabalho o militar precisa cumprir tarefas que funcionam como um ‘pacote’ que vêm junto do contato com o animal.
“Não basta gostar, é preciso ser realmente apaixonado. Digo isso porque é o policial quem faz toda a parte de limpeza e higienização, tanto do animal quanto do local onde ele fica”, explica Kitazume.
Caso o policial realmente apresente vocação para trabalhar com cães ou cavalos, antes de ir é necessário passar por um curso. No caso dos cães, eles são divididos em duas etapas.
“Para estar habilitado para adestrar um cão policial é preciso um curso de 45 dias no Canil Central em São Paulo. O segundo nível são as aulas para treinar um cão de faro, que requer preparo de 30 dias”, explica a subtenente Eliete Aparecida Tavares Ramos, responsável pelo Canil da Polícia Militar de Bauru.
Já no caso dos cavalos, o procedimento é bem mais simples, uma vez que não são os policiais do Destacamento Montado de Bauru quem domam os animais. “O curso dura mais tempo, 90 dias, e é realizado no Regimento da Polícia Montada Nove de Julho, em São Paulo. Lá eles aprendem montaria e conhecem aspectos da saúde e do comportamento do animal”, relata Carlos Almir Boaventura, segundo sargento policial militar, responsável pelo Destacamento.
Além disso, tanto os policiais que trabalham com cães quanto os que escolhem os cavalos podem optar por fazer um curso de enfermeiro veterinário para aprender a cuidar da saúde dos animais. As aulas levam três meses e habilitam o policial para ministrar remédios, realizar exames rotineiros, excluindo apenas as intervenções cirúrgicas.