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Doações podem virar ‘presente de grego’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Aquele pacote de fubá e aquela lata de sardinhas que repousam esquecidos no fundo de seu armário ou mesmo aquele velho rádio à válvula, herança de seu bisavô, seriam de grande utilidade para os mais necessitados, correto? Errado. Às vezes, um gesto repleto de boas intenções pode se converter em um verdadeiro “presente de grego”.

Donativos em mau estado de conservação ou com data de validade vencida podem comprometer o funcionamento de uma entidade sócio-assistencial. Dias atrás, o Abrigo da Vila Vicentina recebeu uma caixa com 100 litros de água sanitária. No último dia 19, o local foi visitado pela Vigilância Sanitária Municipal.

Durante a fiscalização, os agentes notaram que a substância estava fora do prazo de validade. Funcionários do abrigo inutilizaram o produto na presença dos fiscais e por essa razão a entidade recebeu apenas um auto de advertência.

Embora a notificação não configure multa, a Vila Vicentina corre agora o risco de sofrer pesadas sanções, caso reincida na irregularidade. Trocando em miúdos: se a Vigilância Sanitária voltar a encontrar no abrigo algum donativo com o prazo de validade vencido, a entidade será punida e poderá até perder o alvará de funcionamento. Com isso, ficaria impedida de receber as subvenções do Estado, que hoje viabilizam o atendimento a mais de 50 idosos.

“No dia-a-dia, recebemos inúmeros produtos de grande utilidade. Muita coisa, porém, não tem a menor condição de uso. Na minha opinião, doações são sempre bem vindas. Porém, as pessoas precisam refletir bastante, para terem a certeza de que o donativo será de fato aproveitado pela entidade assistencial”, afirma a presidente da Vila Vicentina, Delfina Rosa Pregnolato.

Na maioria das vezes, os funcionários das entidades encontram dificuldades de falar “não” a um doador - mesmo que sua oferta consista numa carga de alimentos vencidos. “É complicado você dizer que não vai aceitar isto ou aquilo, pois as pessoas podem encarar essa atitude como ‘pouco caso’. Vão embora com a impressão de que a entidade não está precisando mais de ajuda”, pensa Pregnolato.

Na raiz desse problema existe uma palavra: conveniência. Muitas vezes, os tais gestos bem intencionados são, na verdade, formas camufladas utilizadas pelos cidadãos para descartar aquilo que não tem mais serventia.

Telefones antigos, rádios à válvula, LPs de cantores desconhecidos, antigas fantasias de carnaval, sofás sem estofamento, geladeiras enferrujadas e até restos de demolição são alguns dos donativos que costumam ser encaminhados a entidades sócio-assistenciais de Bauru. Via de regra, tratam-se de peças defeituosas cujo conserto sairia mais caro do que o valor de comercialização do objeto.

“As pessoas deveriam fazer uma análise baseada no princípio ‘Faça aos outros aquilo que você gostaria que fizessem a você’. Quer dizer, deveriam perguntar a si mesmas: ‘Se eu ganhasse esse objeto, ele teria alguma utilidade para mim, ou eu não o usaria mesmo me pagassem?’”, pensa o presidente do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), Nelson da Silva Bastos.

Algumas vezes, a vontade de se livrar de um produto inconveniente por meio de uma “boa ação” leva a situações absurdas. Tempos atrás, a Vigilância Sanitária Municipal se deparou com pacotes de soda cáustica nas dependências de uma creche, em Bauru.

Segundo apuraram os agentes da fiscalização, o produto havia sido doado à creche por uma indústria instalada na cidade. Na visão do autor da dádiva, a soda - substância conhecida por suas poderosas propriedades corrosivas - seria de grande utilidade para a unidade de ensino, caso algum cano ou vaso sanitário viesse a entupir.

“Em nossa casa, até podemos usar os produtos que julgarmos mais convenientes. Uma entidade sócio-assistencial, contudo, precisa ter total responsabilidade sobre as pessoas que se encontram sob seus cuidados”, afirma o diretor da Vigilância Sanitária Municipal, Flávio Tadeu Salvador.

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Triagem

O diretor da Vigilância Sanitária Municipal, Flávio Tadeu Salvador, recomenda que as entidades sócio-assistenciais realizem uma triagem dos donativos que recebem. “As instituições precisam estar atentas a alguns aspectos como a data de validade e as condições de armazenamento do produto”, explica.

Essa separação do “joio do trigo” é adotada por entidades como a Associação Beneficente Cristã, o Paiva. “Produtos em más condições de conservação podem comprometer seriamente a saúde dos idosos atendidos por possa instituição”, afirma a nutricionista Camila Mesquita. Segundo ela, os alimentos vencidos são retirados da embalagem, desinfetados com água sanitária e por fim enviados ao aterro sanitário.

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