Estados Unidos e China formaram o G2 e entre eles decidem o que é bom para eles e o que devem aceitar ou rejeitar como disciplina que seus parceiros tentam impor nas relações de comércio internacional. Não ligam para ameaças de sanções e ignoram quaisquer recomendações dos organismos que têm a responsabilidade pela boa organização do comércio entre as nações, como é o caso da OMC.
A China, por exemplo, não aceita conselhos nem de seu maior sócio para mudar a política cambial. O problema do câmbio chinês, no entanto, não é só dos americanos. Representa uma ameaça para o equilíbrio da economia mundial. Sabe, porém, que cada um dos demais parceiros, individualmente, teme a perda de seu mercado e a vantagem da importação barata. A Organização Mundial finge estar surda e muda, intimidada pelas ameaças chinesas, parecendo aceitar o ditado chinês (anterior à admissão da China no organismo) que “a OMC não existe sem a China”...
Enquanto isso, o Brasil continua assistindo, inerte, à destruição de suas cadeias produtivas com o Real supervalorizado. A Comunidade Econômica Européia vê a China transformar-se no segundo exportador mundial, ultrapassando a Alemanha, com o Euro valorizado. E o Japão vê sua economia definhar com o Yen supervalorizado. A pergunta é: alguém pode acreditar que essas coisas acontecem como resultado da super-produtividade da economia chinesa?
É mais do que hora da OMC assumir sua responsabilidade pela boa ordenação das relações do comércio mundial. Até quando isso persistirá antes que as forças políticas dos países exijam a volta do protecionismo para incomodar a China, mas ameaçará a ordem econômica mundial e liquidará a OMC? Porque assistir isso passivamente e não decidir enfrentar diretamente os dois problemas fundamentais:
1)os países-membros passarem a exigir que a OMC cumpra a sua tarefa, usando o seu Poder para obrigar todos os associados a obedecerem às regras e compromissos, inclusive os que envolvam as sanções; e 2) os países-membros cobrarem dos organismos internacionais as medidas para desestimular o livre movimento de capitais especulativos.
É melhor enfrentar os verdadeiros problemas do que continuar poetizando sobre a substituição do dólar como moeda de referência internacional. Isso um dia vai acontecer naturalmente ou artificialmente, com uma “moeda fictícia”, virtual, que por definição terá poder liberatório, quer dizer universalmente aceita; precisa ter a confiança dos operadores (que devem manter nela suas posições futuras); e ser a moeda em que se realizam as operações de bolsa que estabelecem os preços internacionais. Em uma palavra: deverá ter a confiança irrestrita dos agentes econômicos.
Não se deve perder tempo, portanto, especulando se devemos substituir o dólar ou ter um sistema monetário multipolar para solucionar as questões inerentes ao comercio, porque as operações de trocas de bens e serviços não chegam a 5% do movimento de câmbio mundial. O grosso é formado pelo movimento de capitais, com suas operações 24 horas por dia em tempo real. O fluxo de capitais que valoriza ou desvaloriza a taxa de câmbio depende do retorno que um dólar pode obter no mercado financeiro mundial.
Hoje é algo ridículo supor, por exemplo, que a moeda chinesa possa, num horizonte visível, substituir o dólar como a moeda universal, uma instituição que depende da confiança, o que as ações da China violando as regras do comércio obviamente não inspiram.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP; ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br