Se há algo que irrita a população é o comportamento “avestruz” de certas autoridades em situações de emergência. Enfiam a cabeça no buraco e fingem que não é com eles. Esquecem que foram eleitos para resolver os problemas já existentes e enfrentar os novos.
É justamente o que vem acontecendo na cidade e no governo do Estado de São Paulo desde que se instalou a calamidade pública com as chuvas. Se o cidadão perguntar “cadê os responsáveis”, vai encontrar respostas evasivas. Poucas foram as medidas concretas para enfrentar o problema. Isso quando não sobra para os mais pobres, como fez o governador José Serra, ao dizer que o problema do lixo nos córregos é culpa do povo.
A estratégia é, na verdade, tentativa de fugir da responsabilidade, da ausência de ações administrativas para combater as enchentes.
O último mapeamento de riscos feito na cidade de São Paulo é de 2003 e foi um trabalho desenvolvido na gestão da prefeita do PT Marta Suplicy. Serra, que assumiu a prefeitura, mas depois a deixou para concorrer ao governo do Estado, e Gilberto Kassab deixaram essa preocupação de lado. São cinco anos sem essa importante ação preventiva.
Também não se ouve mais falar dos 300 Nudecs (Núcleos de Defesa Civil) que a gestão do PT e de Marta deixou para a maior cidade do país. Mas faltam aos governos demo-tucanos investimentos em duas frentes básicas de combate às enchentes: macrodrenagem (limpeza de rios e piscinões) e microdrenagem (despoluição de córregos e bueiros).
A despoluição de córregos e bueiros não vem acontecendo de maneira adequada, o que obriga a população a sofrer com os casos de leptospirose decorrente das enchentes.
É grave igualmente a inexistência de ações de macrodrenagem. O governo Serra, inclusive, está indo na contramão ao ampliar a marginal Tietê. Além de adiar soluções definitivas para o trânsito, está gastando dinheiro público com uma obra que vai agravar o problema do assoreamento do Tietê e aumentar a impermeabilização do solo. O resultado será mais enchentes ainda.
Quem lê o noticiário descobre ainda que 10 dos 18 piscinões da capital estão cheio de lixo. Um descaso completo. Para tentar iludir os paulistas, Serra e Kassab inauguraram o piscinão Anhanguera, que só ficará pronto em julho de 2010. Uma inauguração exatamente no dia em que 11 pessoas morreram e a cidade estava parada por conta dos alagamentos.
O governo do presidente Lula já anunciou um PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) 2, para socorrer cidades e Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, sempre afetadas pelas chuvas. São verbas para obras de infraestrutura, transportes, habitação, saneamento e macro-drenagem.
A pergunta que fica é como justificar que com tantos recursos orçamentários, o município e o Estado mais ricos do país ficam de mãos atadas assistindo à calamidade pública que se abate nesta temporadas de chuvas? Faltam aos governos demotucanos eficiência, planejamento e projetos indispensáveis.
A população de São Paulo precisa de uma administração diferente, que saiba enfrentar os problemas olhando no olho da população. São 16 anos de tucanato. Está na hora de mudar.
O autor, José Dirceu, é advogado e ex-ministro