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Açúcar: herói ou vilão nas refeições?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

O sonho recheado com doce de leite com uma cobertura açucarada ou as belas e coloridas fatias das tortas de morango expostas nos balcões de padarias e docerias são mais do que convidativas. Praticamente irresistível, o açúcar é ingrediente fundamental dos tentadores e, principalmente, deliciosos confeitos que tanto enfeitiçam quanto tornam não só o paladar, mas o humor, mais adocicado.

Contudo, os poderes de saciedade e tranquilizante atribuídos ao açúcar não são a única face dessa substância que contrapõe prazer e perigo. O risco de doenças como a obesidade e o diabetes ou, ainda pior, os dois problemas juntos, faz com que o composto seja encarado muitas vezes como um verdadeiro vilão sob uma atraente e saborosa camuflagem.

Essa atração deflagada pelo poderoso ingrediente muitas vezes é comparada até mesmo ao poderoso efeito de prazer de outras substâncias, algumas delas não tão politicamente corretas ou até mesmo ilegais, casos do álcool, tabaco e cocaína, relaciona a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Centro Integrado de Terapia Nutricional (Citen), em São Paulo.

“No cérebro, os alimentos doces aumentam os nossos níveis de serotonina, um neurotransmissor que desempenha um importante papel na regulação do humor”, explica a especialista. “Assim, alimentos doces parecem melhorar o humor das pessoas”, acentua Ellen, que toma como exemplo os chamados ‘chocólatras’. Sempre que estressados, recorrem às barras para melhorar o ânimo e adoçar a vida.

Excesso

Para a endocrinologista, entretanto, o grande malfeitor, no caso, não é a substância, mas sim o consumo em demasia: “O grande problema da ingestão dos alimentos adocicados é que geralmente estimulam a ingestão de grandes volumes. Nunca é a fome o estímulo para ingerir doces, mas a atração e o fascínio pelo prazer adocicado”, afirma.

Apoiada em números da Organização Mundial da Saúde (OMS), a endocrinologista recomenda que a quantidade de açúcar ingerida não ultrapasse 10% das calorias previstas numa refeição.

Se há um vilão, de acordo com a médica, ele não é necessariamente o açúcar, mas sim um produto ao qual ele é adicionado. “Nos últimos 15 anos, o tamanho das porções de refrigerantes aumentou de forma assustadora”, observa. “O açúcar incorporado na maioria dos alimentos industrializados leva a um consumo expressivamente alto desse ingrediente, causando aumento na caloria das dietas”, acentua a endocrinologista.

O poder arrebatador do açúcar sobre bocas e mentes é comprovado pelo progressivo aumento do consumo no País. Há um século, o consumo médio anual da substância entre os brasileiros, enumera o médico otorrinolaringologista Yotaka Fukuda, autor do livro “Açúcar, Amigo ou Vilão?” (Editora Manole - Com primeira edição esgotada), era de dois quilos. “Hoje, no Brasil, se consome 70 quilos per capita”, compara.

Para o médico, que é professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o ideal, atualmente, seria uma redução a um quarto desse índice. O especialista enfatiza a importância do alimento e destaca que o vilão da história, na verdade, é outro: “O açúcar não é o vilão. Ele é gostoso, está sempre presente nos momentos agradáveis. Na verdade, ele é nosso amigo. O vilão é a gente, que consome sem controle”, atribui.

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