Médico de formação, especialista em ortopedia e traumatologia, consultor da Coordenação Geral de Urgência e Emergência do Ministério da Saúde, José Eduardo Passos integrou o grupo de ajuda humanitária das Organizações das Nações Unidas (ONU) ao Haiti, que retornou na última quinta-feira.
Bastou sete dias em terra haitiana para sentir a existência de uma força superior que move as pessoas a continuar, mesmo depois de perderam familiares, todos os bens, a referência e a autoestima. Para ele, o cenário lembra uma guerra com pessoas feridas, amputadas, órfãs e debilitadas.
Segundo ele, a população sabe que vai acordar e procurar por comida para sobreviver as próximas 24 horas. Não consegue enxergar como será depois.
Apesar de conviver diariamente com situações de urgências e emergências, o médico trabalha no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ele se surpreendeu com a desorganização, num ambiente também marcado pela guerra civil e pelo narcotráfico.
A catástrofe, na opinião dele, uniu todas as classes sociais. A destruição atingiu mansões e barracos, atualmente misturados aos animais e crianças vivas e mortas.
A cena que mais comoveu Passos foi o embarque de 200 haitianos órfãos, amputados num avião da Unicef. “Quando vi aquilo, pensei no destino daquelas crianças que ficaram sem seus pais e agora estavam sendo levados para um país desconhecido. Será que vão ter educação, alimentação adequada, amor, ou servirão de empregados?”, questiona.
De volta a Bauru, ele diz que aprendeu muito sobre a fragilidade do ser humano diante de situações inesperadas, catástrofes. Leia os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade: Qual foi a impressão que você teve ao chegar em Porto Príncipe?
José Eduardo Passos: A logística americana com aviões e caminhões militares formavam um cenário de guerra. No portão do aeroporto, milhares de haitianos em busca de emprego e alimento. Eles buscam diariamente uma condição que faça com que eles sobrevivam mais um dia. A população está vivendo o dia. Eles sabem que vão acordar no dia seguinte e iniciar a rotina de busca.
JC: Nesse contexto, qual foi a primeira sensação?
Passos: Por onde começar a ajudar. Tive que optar entre fazer o atendimento único ou atender a coletividade. Pensei o que seria mais válido naquele momento. Me dedicar especificamente a assistência ou promover uma gestão no serviço de saúde. Fiquei ansioso para realizar o atendimento médico e ao mesmo tempo, pensei na carência verdadeira da população haitiana. O sistema de saúde brasileiro, apesar das carências, tem uma dinâmica que lá não tem. Não era como fazer um atendimento de grande porte como um acidente aéreo. Todo o cenário era de incidente.
JC: Como foi a experiência?
Passos: Minha passagem pelo Haiti proporcionou um ganho muito grande no reconhecimento dos limites do ser humano. Na valorização do social e no reconhecimento da ordem urbana. Sem ela, o caos é instalado. No trânsito, por exemplo, sem regras, a situação é caótica. Em um cruzamento, um dos condutores buzina enquanto o outro passa. Se ocorrer uma colisão, ninguém para. Se a via não for suficente, os carros sobem no passeio.
JC: Que tipo de triagem foi feita para atendimento na área de saúde?
Passos: Para salvar o maior número de pessoas tivemos que optar por aquelas que estavam com mais condições de sobrevida, menos machucadas. A falta de recursos e leitos hospitalares obrigava a fazer escolhas. Os casos mais graves não são atendidos e aqueles que precisam de procedimentos rápidos eram os casos prioritários. Existiam muitos amputados que necessitavam de leitos. Eram muitos os que necessitavam de atendimento médico. Mulheres chegavam carregando idosos e crianças. Como o portão estava fechado porque não havia como atender toda a demanda, algumas mães arremessavam as crianças para o interior do local. Muitas nem voltavam para pegar o filho de volta. O haitiano preserva a vida daquele que tem mais condição de sobrevivência, que possa no futuro trabalhar e garantir o alimento da família. A criança com debilidade não é prioridade para eles.
JC: Como o haitiano lida na ausência de um sistema organizado de saúde pública?
Passos: A falta de um sistema de saúde criou na população uma rotina de cura própria. De procurar os próprios meios de sobreviver diante da doença. Eles não têm cultura de visitar o médico. O acesso é difícil, 80% dos hospitais eram privados. A situação anterior a catástrofe gerou cenas atípicas para os voluntários estrangeiros que faziam parte do grupo de ajuda humanitária. Não estávamos acostumados a ver medicamentos sendo vendidos em baldes pelas ruas. O cidadão escolhe e compra aquele que lhe convier. É uma farmácia móvel. Existiam as farmácias fixas também. Nesse comércio, existiam barracas de celulares, frutas, junto com hortifruti e tantas outras coisas. Lá grande parte das crianças não tinham sistema de imunização, pericultura. Ainda há endemias de febre tifóide e outras doenças que no Brasil não há registros. Essas carências já existiam antes da catástrofe.
JC: O que você fizeram em uma semana?
Passos: A fase inicial já tinha passado, mas existiam pacientes vitimizados de politraumatismos que ainda não tinham sido submetidos a terapia adequada. Como várias entidades estavam atendendo em pontos diferentes sem uma estratégia, sem uma gestão de atendimento, o primeiro passo foi definir isso. O Ministério da Saúde tem a responsabilidade de dar suporte para essas bases militares na área da saúde. Tentamos organizar a assistência primária e a emergencial.
JC: O que vai fazer cada uma?
Passos: A primária vai cuidar da fase epidemiólogica, controle de vetores, doenças ambientais e iniciar um atendimento da progressão de imunização, de reabilitação dos pacientes amputados que apresentam complicações após o atendimento emergencial. Definimos dois focos sobre a gestão desses serviços. Vamos distribuir o atendimento por regiões. Cada uma delas terá uma atenção primária e uma de urgência. O atendimento hospitalar de curta duração será feito nos navios americano, italiano e brasileiro, além da República Dominicana, que está pronta para receber alguns pacientes. A primeira unidade a ser implantada deve ser a brasileira, programada para ser inaugurada no dia 5 de fevereiro pelo presidente Lula. Essa unidade vai ter um custo de R$ 50 milhões. Mais R$ 60 milhões serão investidos em profissionais que vão para lá. Nós catalogamos profissionais do Brasil inteiro que se propuseram a ir para lá. Vamos contar todas as especialidades. Irão intensivistas, pediatras, clínicos, médicos e profissionais de enfermagem. Temos 17mil gestantes na terceira fase de gestação. Essas crianças, como não existia um pré-natal adequado, podem nascer prematuras. Então, temos que dar condições a eles.
JC: Que tipo de unidade vai ser implantada no Haiti pelo Brasil?
Passos: A unidade tem capacidade para tender 450 pacientes/dia e é de porte três. Tem atendimento de ortopedia, ginecologia, odontologia dentre outras especialidades. Tem leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), salas de procedimentos de urgências e 20 leitos de internação de curta duração. Tem condições de resolver 99% dos casos. É a atenção intermediária que vai desafogar os hospitais que ficarão com os doentes que dependem de internação mais longa.
JC: Qual foi a lição que você tirou da tragédia?
Passos: Aprendi que em 30 segundos podemos perder tudo. Somos frágeis diante de situações muito inesperadas. Acredito que algo maior, faça a gente recomeçar. O fundamental não é ter é fazer algo que transcenda. Que seja válido não só para mim, para minha família, mas que influencie no contexto social. É ser feliz e deixar algo que possa ajudar as pessoas a enfrentar situações como esta, que a população haitiana está passando. Temos que começar a pensar no macro. Temos que pensar que tudo o que fazemos tem que repercutir socialmente, não politicamente, mas que tenha um significado. Quando você olhar para trás tem que ter deixado algo. Para mim foi importante ter saído de um país que estamos lutando pela melhoria da qualidade de assistência e fui dar assistência para pessoas que nunca tinha visto, talvez eu nunca volte a vê-las na minha vida. O brasileiro é solidário e desprendido. Saímos daqui para ajudar um país que está em pior situação, temos essa característica. Minha função como profissional de gestão de saúde foi tentar promover lá o que eu quero para nós. Isso vai ser fundamental, fui participativo. A intenção foi dar condições de saúde para aquela gente.
JC: Você acredita que diante de tantas perdas, o povo haitiano vá viver de outra maneira depois que o país se organizar?
Passos: O país estava começando a caminhar, de repente perdeu as próprias pernas. Ele vai ter que se arrastar para poder ter condições de crescer novamente. Eles tinham uma história de sofrimento, mas nada comparado com a magnitude da catástrofe. Tinha guerra civil e narcotráfico, mas era aqui e ali, embora em todas as regiões existisse dificuldade. O Haiti teve uma independência precoce, com vários embargos econômicos. O presidente mora em Miami, vai duas vezes por semana no país. Seus gestores e os poucos ministros não moram lá também. Somente a administração municipal fica lá. Há uma diferença social muito grande. Há necessidade de nascer um novo Haiti.
JC: No Brasil há uma rede de atendimento de urgência?
Passos: O Brasil está se organizando na rede de urgência. Essa semana participei de uma reunião para estruturar e aumentar o repasse de verba para a rede de urgência. Nós nunca tivemos uma rede de urgência. Estamos conseguindo estruturar uma rede, serviço hospitalar móvel, serviço hospitalar fixo. Em contrapartida na atenção básica temos a estratégia da saúde da família que vai ser referência. No Brasil todo haverá unidades de atendimento. Desde o início do ano que elas foram liberadas e serão implantadas gradualmente. Em São Bernardo do Campo foi inaugurada na semana passada. Em Bauru haverá duas unidades de atendimento. O foco principal da minha atuação é adequar a gestão para atingir a eficiência. O Brasil tem várias carências, mas tem uma dinâmica gestora que não tem fora daqui. Para eu colaborar com a melhoria da assistência tenho que deixar a técnica de assistência e partir para uma ação gestora.
JC: Como é a população haitiana?
Passos: Muito carismática. Gosta da gente, chama pelo nome. Tem um respeito muito grande pelos voluntários que trabalham na reconstrução do país. Eles agradecem a ajuda. Acredito que em pouco tempo eles restabeleçam os vínculos de amizade e possam constituir novas famílias. Tudo isso vai começar quando um chamar o outro para retirar um entulho e começar a construir uma casa, outra casa....
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Perfil
• Nome: José Eduardo Passos
• Idade: 34 anos
• Local de Nascimento: Lins
• Signo: Aries
• Esposa: Vivian
• Filhos: não
• Hobby: Leitura e Atividade física
• Livro de Cabeceira: Médico de homens e de almas
• Filme Preferido: O jardineiro fiel
• Estilo Musical: Clássica e MPB
• Time: Corinthians e Noroeste
• Para quem dá nota 10: para minha mãe, Diva. Para minha esposa, Vivian. Para meu irmão Luiz Eduardo e para o meu pai, in memória.
• Para quem da nota 0: Não sou capaz de julgar a esse ponto
• e-mail: JoséEduardo@ig.com.br