A grande diferença entre Aeronáutica e Marinha pode ser resumida assim: tudo que sobe, uma hora desce, mas nem tudo que desce, sobe... Com o automobilismo a regra é semelhante, só que adaptada ao seu deslocamento sobre o solo. Fica assim então: tudo que anda, uma hora tem que parar. Isto porque sempre existem forças de atrito atuando sobre o veículo, sejam elas devido ao atrito entre os pneus e o piso, a resistência do ar, atritos internos do sistema de transmissão ou mesmo obstáculos externos. Resumindo, todo veículo terrestre em movimento, uma hora vai parar de andar. O segredo é parar em segurança e controladamente.
O sistema de freios de um veículo é dimensionado para reduzir ou mesmo interromper seu deslocamento de forma controlada pelo motorista. É sempre coerente com o seu peso, uso e velocidade de projeto. Por isso ressalto que toda vez que se alterar um veículo, seja aumentando sua potência ou melhorando o desempenho, não deixe de reavaliar os freios.
Repito que as leis da física são tão importantes quanto as leis de trânsito. A física nos garante que o atrito estático é maior que o atrito dinâmico e isto, bem traduzido para o português do dia a dia, significa que um pneu rolando sobre o asfalto freia melhor do que um derrapando.
Por isso, não devemos pisar no freio de forma a travar as rodas pensando que vai brecar mais depressa, pois é justamente o contrário. Diversos testes comprovam que sobre qualquer superfície seca ou molhada, com boa aderência ou não, uma frenagem controlada sempre para o veículo em menor espaço do que quando as rodas são travadas em um movimento brusco do pedal. Tanto isto é verdade que o sistema ABS (sigla em inglês de Antilock Braking System ou sistema de frenagem antitravamento) detecta se uma roda tem a tendência de travar durante uma brecada forte e automaticamente alivia a pressão do freio sobre aquela roda, permitindo que ela breque sem o risco de derrapar. Deveria ser traduzido por APM (A Prova de Mané)...
Estudos de segurança veicular indicam várias situações críticas a serem evitadas, mas vamos ver as mais comuns. Em primeiro lugar, o responsável por parar ou reduzir a velocidade de um veículo é o motorista, pois é ele quem acionará corretamente ou não os freios. Caso o motorista não esteja devidamente treinado para agir em emergências, fatalmente fará besteiras.
A primeira coisa que o motorista deve atentar é para o tipo ou estado do piso. Quanto pior for a aderência, menor será o atrito e consequentemente pior será o controle do veículo. Claro que um piso asfaltado segura melhor do que um de terra ou lama, mas se o asfalto estiver molhado, sujo de areia ou com óleo a situação piora muito a dirigibilidade e a segurança.
Uma coisa que se deveria ensinar é como não perder a calma e o controle em uma situação de emergência. Isto só vem com o tempo e a experiência, mas a direção defensiva pode ajudar bastante. Antevendo problemas na estrada como uma curva fechada de mão dupla à frente, por exemplo, pode deixar o motorista mais alerto e preparado para se desviar de alguém que venha em sentido contrário. Caso aconteça de vir alguém na contramão ou na faixa errada e o motorista se assustar, poderá pisar no freio mais forte do que o necessário e derrapar, perdendo o controle do carro. Dirigir pelos outros também ajuda, seja avaliando o comportamento dos outros motoristas ou olhando para o retrovisor do outro carro para perceber se o outro motorista o está vendo também, ajuda muito a prever situações críticas.
Outra lei da física, a inércia, também tem uma regra clara: quanto maior a velocidade e o peso do veículo e menor for o atrito com o solo, maior será o espaço percorrido até sua parada total. Por isso um caminhão precisa de mais espaço de frenagem do que um carro pequeno, por exemplo. Daí que sua velocidade nas estradas é limitada a um valor menor que o dos outros automóveis, basta ver as placas. Se olhar bem, existem outras placas que limitam a velocidade para 100 km/h no seco e a 80 km/h em caso de chuva, pois o atrito é menor em pista molhada.
Portanto, o compromisso de segurança em frear um veículo é sempre o de evitar o travamento das rodas. Nosso impulso humano nos faz apertar mais o pedal quando queremos parar mais rápido, e isto já foi provado que é errado. Se frearmos com competência e virarmos o volante com precisão, poderemos evitar acidentes certos e seguirmos viagem tranquilamente.
* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.
Seu site é www.marcoscamerini.com.br.