“Tudo tem que ser planejado: a vida é uma peça de teatro que não permite ensaio”. Recorro à sabedoria de Chaplin para fazer uma metáfora com a máquina pública. Via de regra, o governante, ao assumir o papel de novo diretor de peça, por tê-la visto da platéia, acha que ter muitas informações e algum conhecimento é possuir sabedoria: desmonta o elenco principal, sem obter as “decodificações” dos dados que tem, diretamente com o diretor e atores anteriores; escala os novos atores com critérios político e pessoal, em detrimento do técnico. Sem o saber de “Carlitos”, esquece que está em cena aberta e não se dá conta que poderá substituir os atores, mas que o tempo é um recurso não renovável (um ano é 25% da gestão). Como disse João Mellão: “Metade será demitido porque não era capaz de nada; metade por ser capaz de tudo. Para cada demitido um técnico. Passado dois anos percebe, aflito, que ainda não começou a governar” (Estadão-22/12/00). Ainda sobre a importância da transição, relatei nesse editorial (JC-08.12.08): “O sucessor, como em uma corrida de revezamento, ao invés de receber o bastão em movimento pega-o parado; detalhes na transição levam à glória ou ao ostracismo”. Meu enfoque é pela vivência em cargos diretivos em empresa do setor elétrico. Na estrutura de então, por três décadas, além da função administrativa, participava de congressos, estudos de normas e legislação do setor, convivendo com a classe política nas esferas municipal, estadual e federal, sem vínculo político-partidário.
Por conta dessa conduta de governantes, legal, mas imoral, que se instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal (101/00), impondo parâmetros rígidos para as finanças públicas (custeio, investimento e endivi-damento). Antes da LRF entrar em vigor, os governantes puderam refinanciar as dívidas federais por 30 anos (federalização). É óbvio que existiam outras dívidas de grande monta, como no caso de Bauru (CPFL, Funprev, terceiros, etc...) A LRF constituiu-se num divisor de água, em 2001, início de gestão de prefeitos. Era o pai dizendo ao filho: “Daqui para frente tome o seu tento e assuma a responsabilidade”.
Na esfera municipal, objetivava transformar o prefeito em gestor contemporâneo, como na área empresarial. A expectativa era que novas posturas fossem adotadas, tais como: transição ocorresse com as partes lado a lado; nomeações com critérios técnicos; estrutura organizacional reformulada (organograma, cargos, funções, carreiras e salários); cursos de formação e aperfeiçoamento de executivos como rotina; atividades de apoio, como de informática e licitação, afetas à Secretaria da Administração, num processo de transversalidade com outras secretarias; as planilhas fossem padronizadas e tratadas como ferramentas de gestão (custos e atividades); Infelizmente, na maioria dos muncípios isso não ocorreu! Retomando a metáfora, pela responsabilidade e complexidade das atribuições do cargo, os prefeitos deveriam se espelhar na direção do espetáculo teatral, no nível do musical da Broadway , “A bela e a fera”, onde os atores interpretam, cantam e dançam. Nele, o diretor jamais pode escalar para seu elenco um ator que só subiu no palco da escola ou um já consagrado que não saiba cantar ou dançar, pelo critério pessoal ou indicação do patrocinador. O primeirocaso, absurdo; o segundo, a pessoa certa no lugar errado.
O autor, Braz Melero, CREA 34380 e CRA 24428, foi diretor regional da CPFL