A história de um adolescente desajustado, narrada na primeira pessoa, vira um livro que se transforma em best-seller mundial, sem que o autor tenha movido uma palha para promovê-lo. Nenhuma entrevista ou anúncio na televisão. Sem noite de autógrafos. Sequer distribuição gratuita de exemplares para os críticos de literatura. Nem mesmo o autor permitiu versões do seu livro para filme, peça de teatro ou musical da Broadway. “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger, vendeu 70 milhões de exemplares desde que foi publicado, em 1951. Depois de conquistar o mundo com uma história simples, o escritor isolou-se numa casa de campo até morrer no mês passado, aos 91 anos.
O sucesso não almejado aconteceu somente porque Salinger deu voz à sua geração. Se atualizadas as gírias ou expressões metafóricas da época, o livro faria sucesso entre os garotos de hoje que levam bomba na escola. O professor fulminara Holden Caulfield com sua caneta. Não sei porque os professores fazem da sua Bic uma arma. O aluno tem que gostar da disciplina. Vencer o sono durante a aula e assisti-la até o final. Responder às chamadas. Um saco! Quem não segue estas regras morre com um canetaço. Caulfield foi reprovado e jubilado da escola de elite. O que é que eu vou dizer lá em casa? A fuga da cobrança dos pais o leva a uma peregrinação incerta e perigosa pelas ruas de Nova York. Nos seus devaneios o garoto se imagina num campo de centeio onde garotinhos brincam. A plantação dá num precipício. “Se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser o apanhador no campo de centeio e tudo”. Assim o narrador deixa claras as razões do título da obra. Ele é o menino crescido que se preocupa com a sorte dos menos crescidos. Esta história provocou gerações à “rebeldia sem causa”. Deu origem a uma revolução musical chamada rock. Inspirou canções de protesto contra o status vigente. A juventude transviada é que “reprovou” os professores, pais, autoridades e toda uma geração anterior que se revelou incompetente: os adultos produziram uma guerra que destruiu o mundo. Só faltava agora quererem ditar normas de comportamento. “E que tudo o mais vá pro inferno”, diria muitos anos depois a dupla Erasmo e Roberto Carlos. F... o mundo.
Salinger não conseguiu “apanhar” nenhum desses garotos. No dia 8 de dezembro de 1980 o jovem Mark David Chapman assassinou John Lennon e disse que a explicação para o seu ato estava em “O apanhador...” O cara que tentou matar o presidente Ronald Reagan também se achou “tocado” pelo livro, para o crime. Quem sabe por isso, decepcionado com o próprio talento literário Salinger tenha preferido se recolher à uma casa no campo, em companhia de um cão labrador. Alguns biógrafos não-autorizados falam de uma grande tragédia romântica na vida do escritor. Ele era apaixonado por Oona O’Neill, filha do grande dramaturgo Eugene O’Neill. A moça preferiu Charles Chaplin, com quem teve muitos filhos e viveu feliz até a morte do comediante.
Mesmo assim, a vida de Salinger é uma espécie de luz para quem pensa que o poder reside na superexposição. Muitos outros talentos deram as costas para a fama e repudiaram a bajulação em nome da arte, da liberdade, da vida. Salinger parou de escrever quando percebeu que não encontrava mais satisfação em expor o fruto do seu espírito. No Brasil temos Dalton Trevisan, vampiro curitibano que não dá entrevistas e nem se deixa fotografar. Raduan Nassar escreveu uma obra-prima, “Lavoura arcaica”. Resolveu parar e criar galinhas no interior de São Paulo. Está feliz no seu quintal, “muito mais interessante que literatura”. Manoel de Barros vive no Pantanal. Thiago de Mello encheu-se daqueles que o acham “exótico” só porque usa roupas brancas. Desde que voltou do exílio em 1978, vive na Floresta Amazônica, numa casa projetada por Lúcio Costa, em meio a livros e cartas pessoais de José Lins do Rego, Manuel Bandeira e Pablo Neruda que lhe dedicou um poema inédito. Lá fora Greta Garbo, a maior atriz do início da explosão do cinema, passou meio-século reclusa num apartamento. O público não quis entender que o seu negócio não era homem... Ela mandou o mundo às favas. Menos votados, mas em condições de serem citados temos em terra tupiniquim o João Gilberto, o Chico Buarque, Rubem Fonseca. Alguém me assopra que Robinho está de volta, mas o seu futebol é que desapareceu. Se é assim, então o Saci-Pererê é a nossa maior vítima. Criado por Monteiro Lobato sumiu depois de encantar as crianças, certamente frustrado com a inexplicável concorrência das horrendas figuras do Raloín.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC