A Confederação Nacional dos Municípios acaba de publicar um mapeamento das mortes ocorridas no trânsito brasileiro. Como não poderia deixar de ser, o número de mortes é alarmante. No Brasil, em 2008, morreram mais de 57 mil pessoas, o que equivale a 30,1 mortes por grupos de 100 mil habitantes. Para se ter uma idéia da catástrofe, nos Estados Unidos foram registradas cerca de 32 mil mortes (12,5/100 mil hab.) e nos países da União Européia, quase 39 mil mortes (7,8/100 mil hab.). Em 2008, calcula-se que, em média, morrem 156 pessoas diariamente - quase 6 mortos por hora; em 2007, os números foram mais impressionantes, com 183 mortes por dia e 7,6 pessoas perderam a vida por hora no sangrento trânsito do país.
Quando se estabelece comparações com os países desenvolvidos, há quem não goste: “são os mais ricos”. Talvez sejam desenvolvidos justamente por que tem posições firmes e fortes. Mas vejamos alguns índices latino-americanos: Colômbia (15/100 mil habit.), Chile (14), Argentina (27), Perú (16).
Considerando as capitais brasileiras, os dados são, além de trágicos, curiosos. Na região Norte encontram-se os piores casos. Boa Vista/RR é o mais grave, com 34,2 mortes a cada 100 mil habitantes, seguida por Palmas/TO (31,4/100 mil hab.). As capitais do Sul e Sudeste, as mais ricas, apresentam dados díspares. Os menores índices ocorrem em São Paulo (14,6), Rio de Janeiro (14,4) e Porto Alegre (13,3); os maiores, em Curitiba (24,0) e Florianópolis (23,4). Algumas capitais do Nordeste têm as menores taxas: Natal (8,5) e Salvador (10,6).
Embora não se tenham dados oficiais ainda, estima-se que o terremoto ocorrido recentemente no Haiti, segundo a Direção da Proteção Civil local, tenha ceifado 75 mil pessoas e foi considerado como uma das maiores catástrofes em nível mundial de todos os tempos. Todo o planeta está sensibilizado com o ocorrido, de maneira justificada, é claro. No entanto, no Brasil, a cada ano e meio ocorre um “terremoto do Haiti” e parece que ninguém está preocupado com o fato. Quer seja o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e nem mesmo a população.
Como explicar este fenômeno de indolência do brasileiro? Os nossos parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos estão sendo dizimados e ninguém fica sensibilizado com esta tragédia cotidiana. É como bater em ferro frio, não há qualquer reação.
Os países da União Européia - e também os EUA - há anos adotaram o princípio desenvolvido na Suécia, na década de 1990, no qual não é aceitável que ocorram mortes e feridos graves no trânsito. É a chamada Visão Zero, que procura responsabilizar todos os atores envolvidos no trânsito pelos seus resultados, sejam engenheiros de trânsito, projetistas de vias e veículos, políticos, legisladores, gestores, a polícia e os usuários também. Além disso, estabelecem metas claras a serem atingidas, ano a ano, para os indicadores de segurança, que são monitorados e os processos são avaliados constantemente, para garantir que os objetivos sejam alcançados. E o sucesso nos resultados mostra que as ações implementadas resultam em crescente diminuição de vidas perdidas e cada vez menos feridos em leitos hospitalares.
Na verdade, o que falta na condução do trânsito brasileiro é vontade política. Leis existem, mas a sua aplicação está longe, muito distante, daquilo que seria razoável. Bêbados continuam dirigindo, os Schumachers continuam velozes em rodovias e ruas, motoristas falam ao celular e passando no sinal vermelho, motoqueiros ignorando as leis. Como, então, mudar os índices de acidentalidade no trânsito? Sem vontade política não há o que se esperar de melhoria, infelizmente.
O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é mestre e doutor em transportes pela USP, coordenador do Núcleo de Estudos Sobre Trânsito, professor da UFSCar e co-autor do livro “Segurança no Trânsito”, Ed. São Francisco. E-mail: raiajr@ufscar.br.