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Questão de hábito

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A moeda é uma questão de confiança. O dólar não chegou a ser a moeda do comércio internacional simplesmente porque os americanos decidiram que ela ia a ser a moeda universal. Ele passou a ser a moeda reserva do mundo, aceita universalmente, depois que a Libra Esterlina após muitos anos começou a sofrer uma desvalorização imensa, no período que se seguiu ao término da Primeira Grande Guerra, nos anos 20 do século passado.

De fato, somente após a Segunda Guerra, que terminou em 1945, o dólar se fixou como a unidade de medida, a moeda reserva mundial, porque as pessoas passaram a ter confiança nele. Isso se mantém nos dias de hoje, mesmo com os abalos no sistema financeiro americano. Qualquer coisa que acontece, uma pequena turbulência que seja no mercado internacional, a fuga é para o dólar. O operador que precisa manter suas posições, que precisa de proteção, só pode refugiar-se na moeda que tenha poder liberatório universal.

Acho muita graça nessa idéia que o Euro vai substituir o dólar e mais ainda que a moeda chinesa, o Yuan vai ser o substituto do dólar num futuro visível. Ora, o Yuan é produto de autoridade do Partido Comunista chinês. Quem é que vai fazer seus depósitos nesta moeda, quem vai fazer suas cotações com base no Yuan num próximo futuro? Qual a garantia que a moeda chinesa terá conversibilidade e que vai adquirir um poder liberatório universal? A China se garante comprando títulos do Tesouro americano.

Então, chega a ser um tanto ridículo imaginar que o dólar vai desaparecer daqui a pouco, daqui a um ano ou meio ano. É possível acreditar que ele vai ser substituído um dia, depois de erodido por muitos anos por outra moeda que talvez ainda não exista. Pode até ser o Yuan, lá pelo século 27 ou na melhor hipótese por uma moeda fictícia construída num acordo internacional pelo qual todos os países concordarão em depositar suas reservas. Isso vai acontecer provavelmente quando houver um governo mundial, o que certamente não será num futuro muito próximo...

Os Estados Unidos, desde praticamente a Segunda Grande Guerra, foram uma espécie de governo mundial. Pelo menos agiram como se o fossem em inúmeras circunstâncias. Agora passam por uma turbulência criada pelas artes de seu sistema financeiro e por isso a moeda ficou sob suspeita. Não chega a ser uma novidade, porém. É só analisar as razões pelas quais se aprovaram as leis (como a Glass-Seagal) que introduziram aqueles controles formidáveis sobre o sistema bancário durante a Grande Depressão, iniciada em 1929. Foi quando o famoso relatório Pécora, elaborado após longas inquirições (e tendo obtido a confissão de proeminentes banqueiros) comprovou as patifarias praticadas no mercado financeiro por quase toda a década dos 20, sob as vistas complacentes da autoridade.

Se olharmos bem, as razões foram as mesmas que são mencionadas hoje e é por isso que eu costumo dizer que se for deixado livre, contando com a leniência dos controles, o sistema financeiro sempre retorna ao local do crime. Não tenhamos dúvida, contudo, que ele vai ser posto novamente sob controle e sujeito a fiscalização rigorosa, pelo menos por um bom tempo. Novos xerifes foram chamados e logo vão aparecer os resultados.

Mesmo se renovando, a cultura inescrupulosa de agentes financeiros de Wall Street não tem produzido estrago bastante para que se retire a confiança no dólar. Acabamos de ter uma prova disso nestas últimas duas semanas, quando turbulências nas finanças de Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha, de média intensidade, provocaram um movimento bastante forte de fuga do Euro. E para onde? O refúgio continua sendo o Dólar.

É o que reforça a crença que coloquei neste comentário. Qualquer dor de barriga, mesmo ligeira, faz com que todos corram ao banheiro, no mesmo endereço: o Tesouro americano...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor Emérito da FEA/USP. Ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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