A multidão que tomou conta do Sambódromo do Geisel, na noite de anteontem, para acompanhar os desfiles dos blocos carnavalescos e das escolas de samba deixou claro, para quem quisesse ver, que o bauruense tem mesmo sede de folia. Por se tratar de um momento de re-encontro, o público “perdoou” muitas das falhas de organização que atrapalharam o andamento da festa.
Este ano, o maior pecado do Carnaval de rua em Bauru foi, sem sombra de dúvida, a cera dos foliões. O Unidos do Jardim Petrópolis, primeiro bloco escalado para pisar na passarela do samba, chegou bastante atrasado ao Sambódromo. O desfile do rei e das rainhas, que estava previsto para começar às 17h30, só teve início às 18h45.
A demora causou irritação nos organizadores, principalmente o secretário de Cultura, Pedro Romualdo. “Isso é uma falta de respeito para com o público”, queixava-se. O vice-presidente do bloco, Elias Roberto Antônio, culpou a prefeitura pelo atraso. “A Secretaria de Cultura não nos cedeu transporte gratuito e nosso povo teve de vir para cá de ônibus, com os instrumentos no colo”. O secretário rebateu dizendo que, este ano, em nenhum momento o Município prometeu transporte gratuito aos blocos.
Além de refletir sobre essa questão, os organizadores poderiam pensar em meios de fazer a festa se consolidar na cidade, de modo que ela voltasse a ocupar o posto de principal Carnaval de rua da região. Como desta vez muitas agremiações quase não tiveram tempo de se preparar para a folia, a galera do Sambódromo até que não foi muito exigente quanto à qualidade dos samba enredos e alegorias apresentados.
O samba do Unidos do Jardim Petrópolis, por exemplo, era bastante simples, com uma letra falava a respeito de Monteiro Lobato e do Sítio do Picapau Amarelo. As fantasias eram igualmente modestas: a bateria usava chapéus parecidos com os de cowboys e uma ala fazia alusão à maior criação do escritor, a boneca falante Emília.
Apesar de ter uma bateria mais afinada, o Estrela do Samba de Tibiriçá também levou para a avenida um samba modesto, com apenas três estrofes. Depois de meia hora de desfile da agremiação, muita gente já não tinha muito ânimo para ouvir o “Pula lelê, samba lalá” do refrão. Em compensação, o bloco trouxe coreografias interessantes, inspiradas na música country. Os alunos do projeto Bate Bola, do Ferradura Mirim, também arrancaram aplausos do público.
Com alas organizadas, fantasias bem feitas e bateria impecável, o Unidos do Samba levantou o Sambódromo. A voz afinada do intérprete Aritana presenteou o público com versos primorosos como “Tupã passeia na imensidão, na força viva de um trovão/Vitória régia, linda flor enamorada, enfeita o rio de Iara...” para contar a saga dos índios caingangues em nossa região. O show não ocorreu por acaso: o bloco vinha se preparando para o desfile desde sua fundação, em 24 de fevereiro do ano passado. “Viemos até aqui sabendo que iríamos levantar o público”, disse Ana Cristina Ignácio da Silva, uma das fundadoras da agremiação. Segundo ela, existem grandes chances de o Unidos do Samba se transforme em escola de samba em 2011.
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‘Tá demorando!’
Depois que o Ouro Verde 100% Arte passou pela avenida, o cortejo foi momentaneamente interrompido para um show de paraquedismo. Eram por volta das 22h30, quando isso ocorreu. Pela previsão dos organizadores, o desfile dos blocos já deveria estar encerrado nesse horário.
Como os paraquedistas demorassem a aparecer, o público passou a ficar impaciente. Pouco a pouco, algumas vaias começaram a surgir na arquibancada. Então, alguém resolveu puxar o coro: “Tá demorando! Tá demorando!”
As vaias foram ficando cada vez mais sonoras, até que, de repente, uma luz surgiu no céu e todos no Sambódromo ficaram extasiados. O mau-humor do público sumiu, como por um passe de mágica. Quando os paraquedistas pisaram na avenida, após apresentarem um show pirotécnico no ar, foram recebidos com gritos entusiasmados da plateia.
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Bloco gigante
Exatamente às 23h20, ingressou na avenida o maior de todos os blocos. Com seus 360 integrantes, É Isso Memo levou ao Sambódromo mais integrantes do que as escolas de samba. Aliás, a estrutura do bloco se aproximou muito das grandes agremiações, com bateria, porta-bandeira, mestre-sala e as diversas alas.
Por ter sua sede no Geisel, bairro que abriga o Sambódromo, o bloco contou com o apoio de grande parte do público, que levou até bandeira para a arquibancada, a fim de prestigiar a exibição de seus representantes no samba.
Ajudou também o fato de o bloco ter estreitas ligações com o time de futebol do bairro, que foi vice-campeã do Campeonato Amador do ano passado. Tanto que o samba enredo escolhido foi “Geisel... Meu Time... Meu Vício”.
Uma das alas era formada por crianças vestidas de árbitros de futebol, com cartões amarelos e vermelhos nas mãos, como se quisessem advertir quem não gosta de samba nem de futebol.
Os blocos que vieram antes e depois do É Isso Memo enfatizaram a diversidade. Enquanto a Unidos da Diversidade levou para a avenida representantes da comunidade GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), o Beija-Flor, que fechou o desfile dos blocos, tratou da variedade no mundo do futebol. Uma das alas tinha passistas uniformizados, representando os grandes clubes do Estado e do mundo, como o Real Madrid e a seleção da Argentina. Era 0h30 quando a agremiação saiu da avenida, deixando o público na expectativa para a entrada das escolas de samba.