Política

Usuário enfrenta dificuldades no AME

Monise Centurion com Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

O agendamento de consultas no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Bauru dificulta a vida do usuário por problemas na origem da regulação, no serviço manual de várias secretarias municipais, e também por obstáculos apresentados pelo próprio programa instalado na nova unidade, inaugurada recentemente.

Não é simples e homogêneo o serviço de agendamento dos serviços. E também não é racional o funcionamento do sistema, tanto que, com frequência, o AME tem recorrido a abertura de “sobras” para completar sua demanda, fato, no mínimo, curioso para uma fila de espera de anos em diferentes especialidades. No início desta semana, por exemplo, não foi diferente. A Prefeitura de Bauru foi comunicada que 1.000 vagas para serviços estavam sendo disponibilizadas como “sobras”.

A dificuldade para o usuário está localizada em mais de um ponto do sistema. Por um lado, os gestores ainda estão se adaptando à nova rotina do programa de computador. Do outro, unidades básicas que não dispõem de Internet e rede interligada ficam à mercê de absurdas listagens manuais das Secretarias Municipais para marcarem os atendimentos.

Nesta ponta, o usuário não escolhe a data, sequer o melhor horário. Como o preenchimento da agenda depende da inclusão da listagem enviada por um servidor municipal, o papel, por vezes, impede que a consulta seja marcada em dia mais favorável ao usuário. Ele é quem tem de se adaptar à data, por falha puramente de tecnologia das secretarias municipais, inclusive em Bauru.

Reportagem publicada no JC no último dia 16 trouxe que cerca de 20% dos usuários não comparem às consultas marcadas. Uma das explicações pode ser justamente a dificuldade que os municípios estão tendo com o novo sistema, ou ainda a “demora operacional” em se marcar consulta com o especialista. Quando chega o dia de sua consulta no AME, muitos pacientes já não precisam mais passar pelo médico e, outros, acabam não tendo possibilidade de deslocamento.

A informatização

A falha operacional mostra que não basta ter uma boa estrutura de serviços instalada. A rede tem de funcionar, papel que a Prefeitura de Bauru ainda não conseguiu executar. “É como se trouxessem uma máquina nova, mas sem o fio para ela funcionar. Como na prefeitura não há sistema, nem interligação, o paciente fica refém da comunicação via papel”, abordou um usuário, que preferiu não se identificar.

De acordo com a responsável pelo sistema de informatização de agendamento de consulta da Secretaria de Estado da Saúde, Sônia Aparecida Alves, o sistema do AME foi pensado originalmente para garantir atendimento presencial nas UBSs. “A ideia era que pudesse acessar o sistema com o paciente na frente, agendar, ele já sair com a consulta agendada e a filipeta dizendo por onde vai passar, o endereço, tudo direitinho. Isso não acontece em Bauru porque o município optou por manter as vagas na regulação da Secretaria Municipal de Saúde”, aborda.

Mas a questão não é com quem está a regulação, mas, como abordou o paciente acima, na forma de execução operacional do atendimento. Sem o sistema ligado ao AME, as unidades bauruenses encaminham a lista com a demanda para a regulação, que faz a ponte até o ambulatório. A Secretaria Municipal de Bauru informa que deverá investir na compra de equipamentos para agilizar o processo. O desafio de informatização está em discussão desde 2005.

Consultas

Mas não é só o papel que torna o paciente refém da falta de atendimento. O sistema do AME dá sinais de que não é “tão inteligente”, ou melhor, o programa e a sistemática de uso não parece levar em conta as necessidades do usuário.

No que diz respeito à consultas, a agenda deve ser disponibilizada um mês antes. Mas, mesmo sobre esta rotina, há informações desencontradas. Para exemplificar, segundo Sônia, na próxima segunda-feira, dia 1º de março, serão abertas as consultas do mês de abril. “As cotas de Bauru estarão disponíveis até o dia 23 de março. O município terá a cota inteira de abril para agendar sem estar disputando com nenhuma outra cidade. No dia 23 de março, o sistema abre até o dia 1º de abril para bolsão (vagas gerais para todos). Ou seja, o bolsão começa sete dias antes da vaga se concretizar. Mas aquela vaga já estava disponível, pelo menos, 23 dias antes”, diz.

No entanto, o JC apurou que a prática não tem sido igual à teoria. No dia 15 de cada mês, as cotas de consultas de especialidades para o mês seguinte são liberadas para os municípios. Uma semana depois dessa liberação, as vagas não preenchidas para a primeira semana do mês em questão já são colocadas no bolsão, e assim sucessivamente.

Neste lógica, a vaga ficaria garantida durante uma semana. Com isso, muitas consultas podem estar sendo colocadas no bolsão em razão do prazo exíguo para a formalização dos agendamentos.

Mas, para Sônia Alves, isso não acontece em Bauru. “O município demora um pouquinho para assimilar e conseguir usar o sistema. Ele entende, mas como é uma novidade, demora até ele se organizar. As unidades básicas têm que fazer uma listagem, mandar para a secretaria municipal, que agenda o paciente, devolve a lista para a unidade básica, que avisa o paciente. Então você precisa de uma logística maior do que se tivesse o paciente diante dele. É preciso tempo de maturação para essas coisas acontecerem. O próprio AME também está num período de maturação. Toda a vez que o paciente tem sua consulta agendada é disparado um torpedo, se ele tiver celular. Tudo isso para a gente tentar diminuir o desperdício de vagas”, pondera a gestora estadual.

Além disso, ela afirma que quando o município precisar, será disponibilizado treinamento do sistema. “O que acontece muitas vezes é que você treina uma ou duas pessoas e elas entram em férias ou mudam de função. Existe também um mecanismo, um telefone que ele liga para o sistema e uma pessoa ajuda”, finaliza.

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