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Um pouco além

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

         Comentário que fiz esta semana sugerindo que o Banco Central vai ter que se reciclar, significando que ele vai ter que rever algumas de suas crenças, não quer dizer que ele deva perder a autonomia para tomar as medidas necessárias para manter a inflação dentro das metas estabelecidas.

O que se deve discutir agora vai um pouco além. É fora de lugar antecipar críticas ao Banco Central tomando como base projeções “de mercado” que indicam a “probabilidade” de elevação da taxa de juros pelo Copom quando ele vier a se reunir na segunda quinzena de abril próximo para 12,75%. São projeções sem nenhuma base sólida e que acabam não se realizando. Se observarmos com atenção, os dados dos boletins FOCUS vão se ajustando paulatinamente até coincidir com o resultado do final do ano. Não se pode aceitar que suas informações são fidedignas. Quanto ao Banco Central, no sistema que escolhemos, na medida em que se eleva a expectativa de inflação, sua obrigação é corrigir a taxa de juro nominal um pouco acima do que se espera para aumentar o juro real.

Deve-se, entretanto, procurar levar a discussão para entender melhor o que está por detrás disso. Formou-e uma leve suspeita de que há uma aceleração da inflação, o que é algo bastante duvidoso porque as informações são  precárias e nós temos um movimento estacional ainda forte. Admitamos que as “previsões” da alta de juros decorram de uma expectativa que a inflação vá a 5% no ano que vem. Hoje, temos uma taxa de juro real de 4%, que já é um absurdo que nos mantém no topo do mundo. Ora, não há nenhuma explicação razoável para que sejamos tratados como um caso tão estranho, teratológico, a tal ponto de insistir que a taxa de juro real de equilíbrio no Brasil é de 7%, quando não de 8%!

Entra governo, sai governo, e nós somos “convencidos” que existem 180 PHDs no mercado produzindo modelos econométricos de altíssima sofisticação que garantem ao Banco Central que a economia brasileira só se equilibra mantendo a maior taxa de juro real do mundo.  A pergunta é por quanto tempo mais a sociedade brasileira vai conviver com essa enganação terrível. Afinal, nós sabemos que os “modelos” só põem para fora aquilo que pusermos dentro deles, para que ao rodar eles revelem aquilo que desejamos. Então, o que é que se coloca dentro do modelo?

Junta o que deu errado nas políticas monetárias dos governos passados, principalmente aquela soma de erros que deu ao Brasil a maior taxa de juros real do mundo e vai se obter o resultado desejado. Conclui-se que com os 5% ou um pouco mais de inflação, estaremos seguros que a taxa Selic deve ser mesmo de 12,75% para se ter o juro real como projetado...

 Não se deseja que o Banco Central perca a sua autonomia, que deixe de fazer as políticas preventivas necessárias para cumprir as metas de inflação. O que se deseja é que ele reveja as suas crenças, o que não seria nada inoportuno diante do cuidado com que estão sendo reexaminados princípios “canônicos” que sustentavam as excelsas virtudes da irrestrita liberdade do movimento de capitais.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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