Articulistas

A sabedoria de José Mindlin

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 3 min

Foi em uma fria tarde de inverno de 2008 que José Mindlin nos recebeu cordialmente em sua casa. Era uma visita agendada pela dra. Glória Palma a fim de conhecermos melhor seu riquíssimo acervo tão conhecido no Brasil. Estávamos em três pessoas, nos acompanhava uma amiga, Maria Lúcia, funcionaria do Sesc, que já na entrada da residência ficou admirada pela imensa prateleira de livros que se estendia por toda sala.

Sentamos em um grande sofá de frente aos livros, Mindlin se acomodou numa poltrona ao lado, colocou as mãos sobre os braços do estofado e foi logo questionando por onde andava a Irmã Jacinta Turolo Garcia, reitora da USC, que anos atrás a visitou no câmpus da Universidade, e que aprendera a admirar como mulher e intelectual, disse que trouxera ótimas recordações deste encontro, no qual, foi lhe apresentado ainda um rol de obras raras adquiridas pela irmã Jacinta para a biblioteca e do pedido feito por ela, para que fossem avaliados por ele. Neste momento percebi o carinho e interesse do dr. Mindlin por Bauru e por uma intelectual reconhecida internacionalmente.

Adentramos uma saudável conversa, falamos de Drummond e sua obra e também da amizade de anos entre o poeta e o dr. Mindlin, me lembro bem quando disse que a obra de Drummond é um misto de dor pela condição humana e alegria pelos fatos da vida e muito brevemente comparamos sua obra com o pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

O que me impressionou durante todo o encontro foi a simplicidade e docilidade do dr. Mindlin, que nos recebeu com tal interesse e atenção que mais parecíamos amigos de longa data. Em um momento da conversa afirmou que todo aquele que é amigo da leitura e dos livros tem um espaço reservado em sua casa e de sua atenção e nos confidenciou que o sinal de uma visita que o agrada é quando esta visita pergunta sobre suas obras e se aventura a levantar e ir até as prateleiras dos livros.

Falou-nos de sua trajetória na época de empresário na Metal Leve, de sua breve carreira política quando foi secretário da cultura em São Paulo, de como foi a sensação de ser aclamado como membro da Academia Brasileira de Letras e principalmente de como conheceu sua saudosa esposa, Guita Mindlin, que conviveu durante 68 anos.

Num momento da conversa nos ofereceu um café, chamou uma senhora que nos serviu um belo café preto à moda mineira. Mindlin, neste momento, não se conteve e afirmou que após a morte de Guita era justamente essa solicita mineira que cuidava de seu bem estar e sossego.

Convidou-nos para conhecer um anexo em sua casa, onde foi construída uma grande biblioteca climatizada, ali em uma construção de dois andares encontramos pesquisadores, leitores e funcionários enfronhados em milhares de obras da literatura, artes, poesia, filosofia, entre outros gêneros que me impressionaram muito.

Por fim, Mindlin nos relatou sobre a doação feita por ele de parte de seu acervo para USP e a construção da Biblioteca Brasiliana que cumpriria seu desejo da democratização plena do livro como bem público e de direito de todo cidadão.

Acompanhou-nos, a passos lentos, até a porta e com um sorriso nos lábios pediu que voltássemos outras vezes, disse que um dia, talvez, visitasse novamente a linda Bauru que tão bem o acolheu. E que bons encontros devem ser repetidos sempre.

Tive a oportunidade, neste dia, de conhecer um dos grandes vultos da história contemporânea do Brasil. A presença e significado de José Mindlin na cultura brasileira são incomparáveis e sem precedentes. Seu legado é eterno e se perpetua nas páginas das obras que tanto amou e preservou. Mindlin não foi apenas um apaixonado pelos livros, foi um ardente apaixonado pelo homem, pela vida e pela sabedoria. Obrigado, mestre!

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo, professor e pesquisador da Filosofia Contemporânea

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